sábado, 2 de agosto de 2014

COMO ROUBAR SEM PROBLEMAS, MALHEIROS EXPLICA

Como roubar e sair impune: roube muito e use gravata
31/07/2014
Por que falamos de bancos e de organizações como a ONU, ou o FMI ou a FIFA, como se fossem respeitáveis?
O PÚBLICO noticiou esta semana o caso de um ex-presidente da Junta de Freguesia de S. José, em Lisboa, João Miguel Mesquita, eleito pelo PSD, que foi condenado em Abril passado a quatro anos e meio de prisão por ter “gasto em benefício próprio”, entre 2005 e 2007, 12 mil euros pertencentes à autarquia.
O Ministério Público tinha-o acusado de desviar 40 mil euros e de falsificação de documentos, mas o tribunal só considerou provado o desvio dos 12 mil euros. A pena de prisão de João Miguel Mesquita ficou suspensa na condição de que o condenado pagasse à autarquia os 12.000 euros de que se tinha “apropriado”, o que significa que não existiu qualquer sanção real para o crime e que o condenado apenas será obrigado a repor o que roubou, como se se tivesse enganado nas contas com a melhor boa-fé do mundo e fosse o mais impoluto dos autarcas.
A notícia chamou-me a atenção porque me recordou um episódio passado comigo. Há uns anos, ao sair de uma carruagem depois de uma viagem de metro, senti-me mais leve do que quando tinha entrado. Ao apalpar os bolsos, percebi que alguém me tinha palmado a carteira, com documentos e uns escassos euros.
Apresentei queixa, substituí os documentos e, passados meses, recebi um telefonema da polícia anunciando-me que tinham prendido um carteirista e que, no meio do seu espólio, lá tinham encontrado os meus documentos. Fui testemunhar a tribunal, juntamente com outras vítimas, e o carteirista, que confessou os crimes, foi condenado a uns anos de cadeia. Não me recordo de o Ministério Público ter nessa altura proposto ao carteirista a devolução do dinheiro roubado em troca de uma pena suspensa e de uma libertação imediata, mas penso que o arranjo lhe deveria ter agradado, já que, no meu caso, a “indemnização” seria de vinte euros. A razão dos dois pesos da Justiça é evidente: o meu carteirista usava uma camisa aberta aos quadrados e um blusão de má qualidade, enquanto que os presidentes das juntas usam em geral fato e gravata. Para mais, o ex-presidente da junta pertencia a um partido do “arco do poder” e o meu carteirista provavelmente não teria actividade política.
Todos os casos que conheço reforçam a minha convicção de que existe uma aplicação do Código Penal para quem usa gravata e outra, infinitamente menos benévola, em Portugal e em todos os outros países do mundo, para quem não usa.
Tomemos o exemplo daquele que é um dos maiores roubos da História: a manipulação da taxa Libor, ao longo de muitos anos, por um cartel de bancos que incluía instituições pretensamente tão respeitáveis como o Barclays Bank, UBS, Citigroup, The Royal Bank of Scotland, Deutsche Bank, JPMorgan, Lloyds Banking Group, Rabobank e outros. A manipulação de uma taxa interbancária de referência como a Libor, em benefício próprio, traduziu-se em perdas para muitos milhões de indivíduos e organizações em todo o mundo. Milhões de estudantes ingleses, de lojas francesas, de quintas italianas e de famílias portuguesas viram as mensalidades dos seus empréstimos aos bancos subir durante anos para que esses mesmos bancos e outros vissem os seus lucros crescer. Tratou-se, em linguagem corrente, de um roubo. Não um roubo como o do meu carteirista mas um roubo sistemático, generalizado, que defraudou milhões e que acumulou riquezas incalculáveis nos bolsos de quem já era imensamente rico.
O que aconteceu a estes bancos? Alguns pagaram multas, outros nem isso, porque denunciaram os cúmplices em troca de imunidade, mas ninguém foi condenado. Houve uns corretores expulsos de uns países, detenções para interrogatórios e foi tudo. Talvez uns quantos acabem por ser presos – os próprios bancos acusados tentarão encontrar bodes expiatórios –, mas nunca o castigo será proporcional ao crime. Todos usam gravata. Alguém espera que o imenso buraco do BES tenha responsáveis criminais?
O ex-presidente da junta, apesar de tudo, foi condenado e a sua reputação saiu ferida, mas os bancos ladrões e os seus administradores e directores continuam a ser referidos na imprensa como entidades respeitáveis e os seus quadros são invejados nas revistas, bajulados pelos Governos e pagos (legalmente) a peso de ouro.
A crise moral que atravessamos traduz-se nisto: condenamos carteiristas à cadeia em nome da Justiça e tratamos com deferência e apresentamos como exemplo organizações criminosas que operam em grande escala, como os bancos. Não é uma novidade, mas o facto de não ser uma novidade e de continuarmos a tolerar a situação só a torna mais grave. Continuamos a tratar com respeito governos que se apropriam de património público para o vender ao desbarato e que destroem monopólios do Estado para beneficiar interesses privados obscuros – como o Governo português está a fazer com a lotaria.
Por que respeitamos estes ladrões? Por que falamos de bancos e de organizações como a ONU, ou o FMI ou a FIFA ou tantas outras, como se fossem respeitáveis? Por que não exigimos que obedeçam aos padrões éticos e legais que exigimos aos outros? Apenas porque usam gravata e sabem usar talheres? Apenas porque ficaram ricos com o dinheiro que roubaram? Somos assim tão parvos?
jvmalheiros@gmail.com





NOTÍCIAS À ESQUERDA 6

NOTÍCIAS À ESQUERDA 6


Para a esquerda ser alternativa, é indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência e imprescindível constituírem-se veículo de um programa político
A recomposição da esquerda portuguesa está na ordem do dia. Uma esquerda antiausteritária que se queira consequente não pode satisfazer-se com o papel de protesto. Por bem que cumpra esta função, se ao protesto não se seguir nenhuma mudança, se dele nada se esperar além da catarse da rua, então é justo concluir que o protesto serve sobretudo de válvula de escape ao descontentamento social, com benefício exclusivo, na ressaca do dia, para a própria política de austeridade, cuja continuidade se vê assim mais bem assegurada.
Também não basta a desmontagem argumentativa da austeridade, dos três ângulos, social, político e económico, por que tem sido feita: a) Fazer a demonstração, do ponto de vista social, de como a austeridade naturaliza a desigualdade, impinge a precariedade como normalidade social e instala no quotidiano das pessoas o medo da incerteza sobre o futuro próximo, recusando-lhes a capacidade de projectarem as suas vidas. b) Deixar claro, do ponto de vista político, como a dívida se substitui de facto ao soberano e como a precariedade restitui ao poder político atributos de um absolutismo que não conceberíamos há alguns anos atrás. c) Fazer evidência de como, do ponto de vista económico, a austeridade não resulta, em nada diminui a dívida soberana, antes transforma-a em dívida eterna, que nos subjugará social, política e economicamente por décadas.
Tornar consequentes estas vocações de protesto e de desmontagem argumentativa, exige à esquerda antiausteritária que encontre uma terceira vocação: mostrar-se alternativa credível de poder face à austeridade que nos governa. Sem esta vocação, a esquerda portuguesa, por empenhada e brilhante que seja, nulifica todos os seus esforços. E para a esquerda antiausteritária ser alternativa, é tão indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência real como é imprescindível constituírem-se veículo de um programa político. Em poucas palavras: uma alternativa política para uma política alternativa.
Se a recomposição da esquerda for mais do que um espectro e servir para fechar este triângulo - protesto, argumentação, alternativa - far-se-á um pouco de história, pois desde que há democracia em Portugal nunca a esquerda à esquerda do PS teve ambições de governar. Mas, outra governação valerá a pena se, além disso, consumar a oportunidade histórica para uma recomposição da própria ideia de esquerda. Não deve preocupar à esquerda apenas as suas dificuldades em convergir, mas também de se renovar ideologicamente a sua capacidade propositiva. Não é certamente esse o caso de uma esquerda refugiada no patriotismo em extremidade peninsular ou, ainda, na nostalgia do regresso ao passado do escudo. Propor é fundamentalmente projectar, com linhas de futuro como horizonte. E pelo menos dois eixos merecem futuro:
1. Quando nos citam pela enésima vez a espirituosa frase de Churchill sobre a que considerou ser a pior forma de governo à excepção de todas as outras, fica bem explicado por que a democracia liberal é inaceitavelmente tímida, com eleitores postos à margem sempre que não há eleições, a democracia europeia resumida a um clube de chefes de governo, a democracia nacional a um clube de partidos, a democracia partidária a um clube de dirigentes. É preciso a esquerda reivindicar-se mais radicalmente democrata e bater-se pela inclusão plena das comunidades no processo político.
2. Hoje não restam dúvidas que a social-democracia, assente no Estado social e na função redistributiva das transferências sociais está a falhar maciçamente. As desigualdades aumentam por toda a parte, a concentração de riqueza também, mau grado as transferências sociais tradicionais. Pior ainda: mau grado o empobrecimento da sociedade. É preciso a esquerda propor-se a mais do que remediar, a jusante do ciclo económico, a desigualdade. Assumindo que as sociedades mais iguais fazem melhor, é preciso complementar as políticas redistributivas, radicalizando-as com políticas de pré-distribuição, que façam da igualdade força geradora de prosperidade económica.
André Barata

Filósofo, dirigente do Livre

quinta-feira, 31 de julho de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA 5 3D

NOTÍCIAS À ESQUERDA 5

Apareceu e desapareceu com a rapidez de um cometa. Muitos acreditaram que era desta vez que uma certa esquerda convergia num projecto consistente. Aqui  fica para memória a renúncia.

Balanço e conclusão do Manifesto 3D                                                                   
                          Documento aprovado na reunião de promotores do Manifesto 3 D
realizada em 7 de Junho de 2014

 Os promotores do Manifesto 3D vêm dar conhecimento aos subscritores das conclusões que extraíram das reuniões realizadas em Coimbra, Lisboa e Porto nos dias 9, 10 e 11 de Abril passado com grupos de subscritores e das decisões daí decorrentes sobre o futuro do Manifesto 3D.

Aos subscritores presentes nas reuniões foi previamente distribuído um documento de reflexão (”Encontros de subscritores do Manifesto 3D – Notas para a discussão“) do qual constava uma análise da situação política, um balanço das ações do M3D (nomeadamente da sua tentativa de promover uma candidatura comum de esquerda às eleições europeias) e um capítulo de reflexão sobre o futuro onde eram colocadas várias questões que poderiam enquadrar a discussão.

É o seguinte o balanço que fazemos destas reuniões de subscritores:

·                  A generalidade dos subscritores presentes reafirmou de forma clara que consideram fundamental a constituição de um polo aglutinador de esquerda, representativo e forte, que não seja apenas uma força de oposição às políticas de austeridade mas possa contribuir para a construção de uma alternativa real de governação

·                  A maioria dos presentes defendeu a transformação do M3D numa plataforma de intervenção política mais ativa, sem que houvesse porém consenso quanto ao formato dessa plataforma, sendo a criação a curto prazo de um novo partido político defendida por uma minoria de subscritores

 Considerando o resultado da sua ação até aqui e os sentimentos e as razões expostos pelos subscritores, os promotores do M3D reunidos em 7 de Junho de 2014 decidiram:

1. Não considerar a transformação do Manifesto 3D numa organização política, qualquer que seja o seu estatuto e objetivo, por considerar que o texto do Manifesto 3D, já assinado por mais de 5.400 subscritores, não legitima de forma inequívoca essa transformação.

2. Pôr termo à sua atividade enquanto Comissão Promotora e a qualquer forma de intervenção pública em nome do Manifesto 3D.

3. Reafirmar a necessidade da construção de um polo de esquerda que saiba somar à oposição à austeridade a vontade de participar na governação e na resolução responsável dos problemas do país.

Posto isto, e considerando em particular o resultado das recentes eleições europeias, onde foi expressa de forma clara a rejeição dos partidos do atual Governo, a reduzida confiança na alternativa representada pelo Partido Socialista, uma crescente desvinculação do atual sistema político por parte dos eleitores e a procura por muitos cidadãos de novas formas de intervenção no plano cívico e político-partidário, estamos convictos de que:

·                  os resultados das eleições para o Parlamento Europeu demonstraram que a proposta do M3D de uma candidatura às eleições europeias que reunisse numa base programática comum o Bloco de Esquerda, o partido Livre, a Renovação Comunista, o M3D e outras organizações políticas, movimentos e pessoas fazia sentido, era oportuna e era possível

·                  existe um número muito significativo de cidadãos empenhados na construção de uma solução governativa à esquerda que compreendem a necessidade e sentem a urgência de construir um terreno comum onde seja possível o entendimento entre diferentes forças de esquerda e veem com desencanto e desagrado a recusa da procura desse entendimento

·                  existe um número importante de cidadãos à esquerda que considera necessária uma reconfiguração do atual panorama político-partidário que possa dar origem a esse entendimento entre forças de esquerda capaz de produzir uma solução governativa

·                  a proposta de entendimento à esquerda que foi lançada pelo M3D deixou sementes positivas no debate político que germinarão em novas iniciativas

Assim, enquanto promotores do Manifesto 3D, reafirmamos a nossa determinação na construção de uma alternativa de governação à esquerda e o nosso empenho na construção dos instrumentos que possam corporizar essa alternativa. No entanto, as futuras iniciativas que venham a materializar-se nesse sentido, ainda que beneficiem da herança e do capital de experiência recolhido pelo M3D, não se realizarão sob essa designação.


Os promotores do Manifesto 3 D reunidos em 7 de Junho de 2014

quarta-feira, 30 de julho de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA 4

NOTÍCIAS À ESQUERDA 4



Caminhos das esquerdas
DOMINGOS LOPES 
29/07/2014
A dificuldade de se construir uma alternativa de esquerda não pode ser ultrapassada por uma corrida de personalidades.
Os partidos de esquerda, tal como os partidos de direita, perderam, em grande medida, a capacidade mobilizadora que tinham. Mobilizam uma pequena parte (a mais ativa) do seu eleitoral – o aparelho partidário e os mais ativistas.
A direita, no poder em Portugal e em quase em toda a União Europeia, afirma-se impondo a austeridade como inevitável, deixando as populações aturdidas, sem saber como sair do ciclo vicioso.
A direita dos interesses está intimamente vinculada com o poder económico-financeiro e essa é a arma que utiliza para levar avante a política neoliberal que desregula as sociedades europeias, cujo consenso assentava no Estado social.
Num mundo profundamente desequilibrado, sobretudo depois da implosão da URSS, as diversas esquerdas têm sentido grandes dificuldades para responder aos desafios.
Os partidos socialistas e social-democratas claudicaram e renegaram a própria social-democracia.
Muitos partidos comunistas [PC] renegaram o socialismo e quase desapareceram.
Surgiram, entretanto, outras formações com maior ou menor representatividade social e eleitoral em vários países.
O desígnio destas novas formações foi ganhar uma vasta faixa de eleitorado que se situa entre os PC e a social-democracia.
Por um lado, porque os PC não foram capazes de responder às aspirações dessas camadas e, por outro lado, porque as novas formações apostaram numa representatividade própria que lhe desse um outro estatuto no xadrez político-partidário.
O caso português não foi diferente, designadamente com o surgimento do BE.
Porém, o aparecimento e o crescimento do BE não se traduziu numa maior cooperação entre as esquerdas.
O PS continuou a sua deriva liberal. O PC fechou-se ainda mais, com receio do concorrente.
Ao mesmo tempo, o movimento social, já de si fragilizado, foi perdendo força. As manifestações contra este Governo tiveram uma grande amplitude, mas perderam impacte à medida que se tornava claro que não havia alternativa.
A tentativa de Manifesto 3D falhou exatamente porque, mesmo os que se diziam abertos, estavam fechados a sete chaves nas suas capelas imaculadas.
A deterioração da situação no BE é consequência da incapacidade de manter coesos grupos que sentem o esfrangalhamento do partido.
Há, porém, quem, à pressa, anuncie que tal ou tal agrupamento se vai juntar ao Livre e assegure condições para a governabilidade da esquerda.
É manifesto que a junção de uma das dissidências do BE com algumas personalidades do Manifesto 3D e outras do Congresso Democrático das Alternativas para fazer um acordo com o PS não chega para um entendimento mais fundo à esquerda.
Pode chegar para governar melhor que atual maioria, sem dúvida, mas não chega para assegurar um consenso mínimo em torno do Estado social e no quadro da UE, designadamente sobre o compromisso em torno do Pacto de Estabilidade que impede o país de crescer e se desenvolver e fazer frente ao mortífero desemprego que varre Portugal.
Naturalmente que não se pode levar pelas orelhas quem não quiser um entendimento ou convergência à esquerda, mas ainda não se viram grandes esforços para que, por exemplo, o PCP faça parte desse entendimento ou convergência.
Certamente que haverá vida para além do PCP, mas não é menos certo que, devido à influência do PCP em certos meios, essa participação é fundamental, até para não deixar à esquerda quaisquer dúvidas acerca do que cada um quer.
Ora se não houver simultaneamente uma mobilização popular que apoie este objetivo, os entendimentos por riba são sempre frágeis e passíveis de serem postos de lado às primeiras dificuldades, pressões ou ingerências perfeitamente imagináveis num mundo que vai momentaneamente em sentido contrário a esta orientação.
A dificuldade de se construir uma alternativa de esquerda não pode ser ultrapassada por uma corrida de personalidades com um ou outro partido e proclamar in hoc signo vinces.
É preciso mais trabalho de fundo, que está sempre (para alguns) em contradição com o calendário eleitoral.
Trazer o PS, o PCP e o BE para uma negociação deste calibre exige muito músculo, mas sem ele a alternativa pode ser coxa; sendo também certo que a História não está dependente de um deles, dos dois ou dos três.
A existência de vários sectarismos que têm caracterizado a vida política à esquerda não se pode resolver com a declaração “solene” de que é preciso passar do protesto à governação. Claro que é preciso isso e muito mais: um grande debate que lime arestas e seja capaz de aglutinar estas forças na defesa do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, de uma justiça para todos, da Segurança Social, do crescimento do emprego. Estes são pontos inultrapassáveis. A governação é torná-los viáveis e não uma caricatura, como faz a atual maioria.
Para alcançar este objetivo, se for preciso romper condicionantes da UE devem romper-se. Uma negociação forte, com negociadores de costas erguidas e alianças com outros países nas mesmas circunstâncias, pode tornar possível aquilo que os neoliberais querem que seja impossível. As esquerdas têm esse dever. Resta o caminho a fazer.

domingo, 27 de julho de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA! (3)

NOTÍCIAS À ESQUERDA 3

O BE teve mais uma hemorragia. Realizaram uma AG e divulgamos o que essa corrente que sai do BE aprovou. 


FÓRUM MANIFESTO – ASSEMBLEIA GERAL
12 Julho 2014

Resolução política aprovada na Assembleia Geral

1. Decorridos três anos da assinatura do Memorando de Entendimento,
Portugal encontra-se hoje mais pobre, desigual e vulnerável. Sujeito a
constrangimentos profundos, que decorrem do próprio «ajustamento», do
garrote da dívida e do quadro de imposições externas, paira sobre o
país a ameaça de um processo de aprofundamento continuado da atual
regressão económica, social e política. Chamadas a responder a este
momento crucial da nossa história, com as próximas eleições
legislativas já no horizonte, as esquerdas têm revelado uma
persistente incapacidade para romper com o bloqueio em que se
encontram, seja pela dificuldade de encontrar soluções alternativas,
credíveis e viáveis à trajetória da austeridade, seja pela dificuldade
em constituir plataformas comuns de entendimento e compromisso entre
elas.

2. As derrotas consecutivas que o BE acumulou nos últimos anos, e que
o conduziram à magra expressão eleitoral obtida nas últimas eleições
europeias, não são um reflexo de factores externos. São fruto da
acumulação de erros não corrigidos, inscritos numa orientação política
que divorciou crescentemente o BE do seu potencial eleitorado. Perante
a opinião pública, o Bloco vincou, ao longo dos últimos anos, a imagem
de um partido cada vez mais virado sobre si próprio, indisponível para
o diálogo e para a convergência com outras forças políticas à
esquerda; centrado no protesto, e por isso indisponível para
estabelecer compromissos efetivos de governação; revelando uma
insuficiente, inconsistente e até, por vezes, contraditória construção
programática. Isto é, um partido que surge aos olhos dos cidadãos como
incapaz de responder, com realismo, credibilidade e determinação, aos
problemas e desafios com que o país se confronta de forma dramática e
urgente.

3. Quando a Política XXI, que viria posteriormente a converter-se na
Associação Fórum Manifesto, ajudou a fundar o Bloco de Esquerda, fê-lo
na convicção de que este partido seria a força necessária para quebrar
o bloqueio então existente, entre um PS alinhado com o centro político
e um PCP indisponível para a governação. Na sua génese, o Bloco assume
pois, como compromisso matricial, o papel da construção de pontes e do
fomento do diálogo entre as esquerdas, procurando nesses termos
estimular um processo comum de renovação programática, capaz de
superar os bloqueios gerados pela crise da social-democracia e pela
queda do muro de Berlim. Passada quase década e meia da sua
existência, constata-se porém o abandono consciente e reiteradamente
afirmado nos últimos anos da missão política em que assentou a criação
do Bloco de Esquerda.
Por isso, a Manifesto considera esgotada a sua participação enquanto
corrente fundadora do Bloco, decidindo assim pela sua desvinculação a
este projeto político. Embora, tal como até aqui, esta decisão não
vincule cada um dos seus ativistas, que são livres de permanecer, ou
não, como aderentes do Bloco de Esquerda.

4. A superação do impasse em que a esquerda se encontra,
imprescindível para a construção de soluções e propostas capazes de
devolver a esperança ao país, requer que seja retomada a vontade de
construir, com todos os que estejam para tal disponíveis, uma
alternativa urgente que assegure a defesa do país, do seu
desenvolvimento, da democracia e dos direitos sociais.

Tendo como ponto de partida uma postura de diálogo e disponibilidade
para estabelecer compromissos, a Manifesto entende ser necessário
desenvolver outros espaços de intervenção política, capazes de
contribuir para a formação de convergências fortes e credíveis à
esquerda do PS, com claros objetivos de influenciar a governação do
País neste momento de urgência nacional. Decide assim promover, ao
longo dos próximos meses, iniciativas concretas nesse sentido, tendo
como horizonte imediato as próximas eleições Legislativas, previstas
para 2015. O Conselho Geral da Associação Fórum Manifesto fica
mandatado para desenvolver estes esforços, cabendo a uma próxima
Assembleia Geral a discussão e deliberação acerca dos seus resultados.


NOTÍCIAS À ESQUERDA! (2)

NOTÍCIAS À ESQUERDA 2

Texto sobre a esquerda. Primeiro texto que coloco, o objectivo é o de ir divulgando posições, reflexões, estudos etc que, pessoalmente, penso serem úteis para reflectir sobre o que se passa nos e entre os partidos, movimentos  e organizações de esquerda.


De repente, a unidade da esquerda tornou-se o tema dominante do debate político. Não é, certamente, por acaso. A violência das políticas dominantes em Portugal (e no resto da Europa) atira para o desespero largas camadas da população sedentas de algo de novo à esquerda que as proteja.
Mas a causa próxima deste surto de crónicas e declarações foi a recentemente falhada tentativa de formação de listas conjuntas para as eleições europeias entre Boco de Esquerda e outros grupos associados ao Movimento 3D. Os detalhes dos factos que rodearam esta experiência serão relevantes. Não são, seguramente, os principais responsáveis por aquele falhanço.
Há pelo menos duas formas de fazer unidade com os partidos políticos. Ou estes integram nas suas listas personalidades que lhes são exteriores (vulgarmente designadas independentes) com o objectivo de obter maior abertura, ou procura-se uma solução mais abrangente criando entendimentos ou coligações com outros grupos ou partidos.
O Bloco, estranhamente, adoptou o primeiro procedimento, num momento em que estava profundamente envolvido no Congresso Democrático das Alternativas em termos de elaboração programática e acabou por ser surpreendido por uma proposta pública de unidade. Este foi o seu primeiro erro neste processo.
Acossados e sem iniciativa, os dirigentes do Bloco foram produzindo sucessivas declarações preanunciando o desenlace final e o fracasso. E este terá sido o seu segundo erro, não querendo reconhecer a amplidão do movimento de opinião que urgia estruturar.
Assim se percebe Ana Drago quando afirma “... um modelo de articulação não chegou sequer a ser equacionado – a direcção política do Bloco de Esquerda não se mostrou disponível para iniciar um debate programático com alguns dos possíveis participantes nessa convergência”.
Aquilo que valeria a pena saber é, porquê? Por que razão não se procurou desde o princípio criar as condições para uma candidatura às europeias suficientemente representativa de um leque diversificado de grupos e movimentos, num momento em que o entendimento programático com eles era mais fácil que nunca?
O tempo, como sempre, encarregar-se-á de fornecer a resposta. Façamos votos, entretanto, para que essa resposta nada tenha que ver com a tentativa de empurrar o 3D para os braços de António José Seguro e da política de austeridade, para “clarificar” a situação e erguer o Bloco a partir dos escombros de tal aproximação. Qual processo de destruição criadora, neste caso inspirado de forma mecânica na ruptura que se produziu na Grécia entre Syriza e Dimar.
Primeiro, por que tal aproximação pode nunca chegar a concretizar-se, mesmo admitindo que há quem a deseje. Mas, sobretudo, porque destruir capacidades encaminhando-as para o precipício nunca foi solução para fortalecer a esquerda.
Eis o que não queremos com a unidade de esquerda.
Adelino Fortunato
Professor da Universidade de Coimbra