Estive, marquei presença, sou um dos subscritores iniciais deste
movimento. A situação que o país atravessa exige de todos nós e em particular
dos mais conscientes que saíamos do nosso conforto, que descruzemos os braços e
que dêmos a nossa contribuição para travar este descalabro propositado e que dêmos
o nosso esforço para tentar criar uma alternativa democrática que inverta o
caminho de destruição da democracia e do que resta de Abril.
Sala cheia, muitas intervenções, demonstrativas do descontentamento
sentido, mas também muita determinação de continuar, de ajudar a construir um
novo movimento, aberto, sem espírito partidário fechado, feito democraticamente
com a participação dos que o quiserem
fazer, a partir de baixo. Queremos que ganhe asas e força representativa para
que essa força política e também eleitoral sirva para desbloquear à esquerda a
possibilidade de entendimento sem o qual tudo permanecerá na mesma, a velha
alternância que mata e enterra a necessária alternativa democrática na
sociedade e na política social e económica.
Em www.tempodeavancar.net a informação sobre este movimento em
construção onde todos podem participar na elaboração da linha programática,
subscreverem a Candidatura Cidadã Tempo de Avançar, participar nas escolhas dos
seus representantes. Dia 31 de Janeiro, em Lisboa, será a confirmação de Tempo
de Avançar.
Tempo
de arriscar
Por Isabel do Carmo
09/01/2015
Não podemos deixar correr este filme como simples observadores.
A realidade da crise exige novas formas de intervenção. O apelo a um polo à
esquerda vem desde o Manifesto 3D (Dignidade, Democracia e Desenvolvimento).
Concretiza-se agora na articulação do movimento Manifesto/partido
Livre/cidadãos independentes e concretiza-se na Plataforma de Cidadãos Tempo
de Avançar.
A capacidade concêntrica da “matriosca” até podia ser uma qualidade, mas é
melhor chamar-lhe um puzzle. Articulação de peças desiguais, que mantêm
identidade, mas que encaixam sem sectarismo. Isso é novo, traduz uma cultura de
tolerância, capacidade de ouvir e de actuar em conjunto, distante da que
existia há quarenta anos. Neste período perdemos muitas das conquistas sociais,
mas ganhámos como indivíduos, ao nível mental, do conhecimento, de estar com o
outro. Isto transcende os círculos restritos de militantes e activistas para
atingir os grandes círculos da comunidade, que se organiza em múltiplas
associações, onde ninguém pergunta qual o credo ou a ideologia.
Nesta articulação sem perímetro definido, há no entanto linhas vermelhas
que não podem ser ultrapassadas – não aceitar mais a austeridade, ou seja a
pobreza, como solução para a crise que é afinal do sistema bancário. Defender
em concreto o contrato social, os mecanismos reguladores e compensadores das
desigualdades – ensino e saúde públicos, segurança social. Meter-se entretanto
na gaveta o objectivo da igualdade de oportunidades, na diversidade. Nasce-se
desigual. E a muitos isto não dá vergonha e nem sequer um sobressalto.
Dizem os especialistas que, segundo as contas, é impossível para Portugal
continuar a pagar a dívida nestes moldes e manter o Estado Social. “Dívida” e
“culpa” são a mesma palavra em língua alemã e também o são para os que têm a
memória ancestral das dívidas à mercearia, ao padeiro, ao amigo e que são
massacrados com o discurso moralista dos “sacrifícios” e do risco de
bancarrota. Ora o negócio dos credores é a renda dos juros. Lutarão por ela.
Todavia, a realidade não é estática. É necessário contar com o inesperado. É o
que acontece com as sondagens do Syriza na Grécia e com o surgimento do Podemos
em Espanha. E se a realidade da Europa do Sul, pudesse dar outra escala a este
pequeno Portugal?
Olhando de helicóptero, observamos um momento impiedoso de vitória dos
defensores da desigualdade, da mercantilização da vida humana, da perda de
direitos adquiridos em lutas (onde já vão as oito horas de trabalho, aqui na
Europa). E o trabalho foge para onde há escravatura, semi-escravatura ou
trabalho não-decente para usar a terminologia da Organização Internacional do
Trabalho. Parafraseando Ricardo Salgado (entrevista ao Expresso, 26.03.2011):
“o sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados”. O problema não é
este ou aquele fulano. De facto, o que está em questão é o sistema. No meio
disto tudo a boa coisa foi a aparecimento do Papa Francisco. Para mim, que não
sou católica, posso discutir certas zonas do cauteloso discurso papal, mas os
católicos têm que engolir a pastilha por inteiro. Eu bem os observo em
habilidosas deturpações ou omissões…
Vendo também de helicóptero, percebe-se que a automatização da produção vai
produzir exércitos de desempregados. É só uma questão de tempo. Haverá então
hordas de pessoas consideradas inúteis pelos donos do mundo. A ministra da
Saúde da Lituânia já sugeriu a solução para alguns, uma vez que naquele país
não há Serviço Nacional de Saúde: “A eutanásia pode ser uma boa escolha para os
pobres, que em razão da sua pobreza não têm acesso ao serviço médico”.
Em Portugal, a população vê passar milhões à sua frente, no aquário,
enquanto um quarto dela está em situação de pobreza. O ministro da
Solidariedade já lançou uns milhares na miséria, com os cortes e quer
estabelecer tectos, porque vê perigos morais (preguiça) em que os subsídios
todos juntos de uma família de onze membros, somem 950 Euros! Muito
respeitáveis são os membros não-executivos de conselhos de administração que
recebem dezenas de milhares de euros por mês para irem lá uma ou duas vezes por
ano. Esta é a matriz do pensamento dos que nos governam.
Perante esta situação, o Partido Socialista ou se volta para a esquerda, ou
sofrerá o destino dos partidos socialistas da Grécia, da França e da Espanha.
E quanto àqueles que ficam à sua esquerda e com quem é possível e
necessário que dance o tango, temos que arriscar. Parece que arriscamos o
impossível. Mas a vida não pára. Alguns acusam a nova organização de “querer ir
ao pote” ou de pretender uma secretaria de Estado. O pote é fraco para pessoas
que têm as suas carreiras de investigação. Ana Drago e outros têm carreira
académica e podiam preservar a sua “pureza” com distância. Reduzir o objectivo
a uma secretaria de Estado é o mesmo do que deixar a esperança pendurada à
porta, como se fosse uma segunda pele. No entanto, pode haver outra razão para
que se arrisque vitórias e derrotas, rótulos e classificações. Essa razão é
ética: não podemos deixar correr este filme como simples observadores.
Médica. Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa
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