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domingo, 11 de janeiro de 2015

NOTÍCIAS À ESQUERDA TEMPO DE AVANÇAR




Estive, marquei presença, sou um dos subscritores iniciais deste movimento. A situação que o país atravessa exige de todos nós e em particular dos mais conscientes que saíamos do nosso conforto, que descruzemos os braços e que dêmos a nossa contribuição para travar este descalabro propositado e que dêmos o nosso esforço para tentar criar uma alternativa democrática que inverta o caminho de destruição da democracia e do que resta de Abril.

Sala cheia, muitas intervenções, demonstrativas do descontentamento sentido, mas também muita determinação de continuar, de ajudar a construir um novo movimento, aberto, sem espírito partidário fechado, feito democraticamente com a participação dos que o  quiserem fazer, a partir de baixo. Queremos que ganhe asas e força representativa para que essa força política e também eleitoral sirva para desbloquear à esquerda a possibilidade de entendimento sem o qual tudo permanecerá na mesma, a velha alternância que mata e enterra a necessária alternativa democrática na sociedade e na política social e económica.  

Em  www.tempodeavancar.net  a informação sobre este movimento em construção onde todos podem participar na elaboração da linha programática, subscreverem a Candidatura Cidadã Tempo de Avançar, participar nas escolhas dos seus representantes. Dia 31 de Janeiro, em Lisboa, será a confirmação de Tempo de Avançar.  

 

Tempo de arriscar

Por Isabel do Carmo

09/01/2015

Não podemos deixar correr este filme como simples observadores.

A realidade da crise exige novas formas de intervenção. O apelo a um polo à esquerda vem desde o Manifesto 3D (Dignidade, Democracia e Desenvolvimento). Concretiza-se agora na articulação do movimento Manifesto/partido Livre/cidadãos independentes e concretiza-se na Plataforma de Cidadãos Tempo de Avançar.

A capacidade concêntrica da “matriosca” até podia ser uma qualidade, mas é melhor chamar-lhe um puzzle. Articulação de peças desiguais, que mantêm identidade, mas que encaixam sem sectarismo. Isso é novo, traduz uma cultura de tolerância, capacidade de ouvir e de actuar em conjunto, distante da que existia há quarenta anos. Neste período perdemos muitas das conquistas sociais, mas ganhámos como indivíduos, ao nível mental, do conhecimento, de estar com o outro. Isto transcende os círculos restritos de militantes e activistas para atingir os grandes círculos da comunidade, que se organiza em múltiplas associações, onde ninguém pergunta qual o credo ou a ideologia.

Nesta articulação sem perímetro definido, há no entanto linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas – não aceitar mais a austeridade, ou seja a pobreza, como solução para a crise que é afinal do sistema bancário. Defender em concreto o contrato social, os mecanismos reguladores e compensadores das desigualdades – ensino e saúde públicos, segurança social. Meter-se entretanto na gaveta o objectivo da igualdade de oportunidades, na diversidade. Nasce-se desigual. E a muitos isto não dá vergonha e nem sequer um sobressalto.

Dizem os especialistas que, segundo as contas, é impossível para Portugal continuar a pagar a dívida nestes moldes e manter o Estado Social. “Dívida” e “culpa” são a mesma palavra em língua alemã e também o são para os que têm a memória ancestral das dívidas à mercearia, ao padeiro, ao amigo e que são massacrados com o discurso moralista dos “sacrifícios” e do risco de bancarrota. Ora o negócio dos credores é a renda dos juros. Lutarão por ela. Todavia, a realidade não é estática. É necessário contar com o inesperado. É o que acontece com as sondagens do Syriza na Grécia e com o surgimento do Podemos em Espanha. E se a realidade da Europa do Sul, pudesse dar outra escala a este pequeno Portugal?

Olhando de helicóptero, observamos um momento impiedoso de vitória dos defensores da desigualdade, da mercantilização da vida humana, da perda de direitos adquiridos em lutas (onde já vão as oito horas de trabalho, aqui na Europa). E o trabalho foge para onde há escravatura, semi-escravatura ou trabalho não-decente para usar a terminologia da Organização Internacional do Trabalho. Parafraseando Ricardo Salgado (entrevista ao Expresso, 26.03.2011): “o sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados”. O problema não é este ou aquele fulano. De facto, o que está em questão é o sistema. No meio disto tudo a boa coisa foi a aparecimento do Papa Francisco. Para mim, que não sou católica, posso discutir certas zonas do cauteloso discurso papal, mas os católicos têm que engolir a pastilha por inteiro. Eu bem os observo em habilidosas deturpações ou omissões…

Vendo também de helicóptero, percebe-se que a automatização da produção vai produzir exércitos de desempregados. É só uma questão de tempo. Haverá então hordas de pessoas consideradas inúteis pelos donos do mundo. A ministra da Saúde da Lituânia já sugeriu a solução para alguns, uma vez que naquele país não há Serviço Nacional de Saúde: “A eutanásia pode ser uma boa escolha para os pobres, que em razão da sua pobreza não têm acesso ao serviço médico”.

Em Portugal, a população vê passar milhões à sua frente, no aquário, enquanto um quarto dela está em situação de pobreza. O ministro da Solidariedade já lançou uns milhares na miséria, com os cortes e quer estabelecer tectos, porque vê perigos morais (preguiça) em que os subsídios todos juntos de uma família de onze membros, somem 950 Euros! Muito respeitáveis são os membros não-executivos de conselhos de administração que recebem dezenas de milhares de euros por mês para irem lá uma ou duas vezes por ano. Esta é a matriz do pensamento dos que nos governam.

Perante esta situação, o Partido Socialista ou se volta para a esquerda, ou sofrerá o destino dos partidos socialistas da Grécia, da França e da Espanha.

E quanto àqueles que ficam à sua esquerda e com quem é possível e necessário que dance o tango, temos que arriscar. Parece que arriscamos o impossível. Mas a vida não pára. Alguns acusam a nova organização de “querer ir ao pote” ou de pretender uma secretaria de Estado. O pote é fraco para pessoas que têm as suas carreiras de investigação. Ana Drago e outros têm carreira académica e podiam preservar a sua “pureza” com distância. Reduzir o objectivo a uma secretaria de Estado é o mesmo do que deixar a esperança pendurada à porta, como se fosse uma segunda pele. No entanto, pode haver outra razão para que se arrisque vitórias e derrotas, rótulos e classificações. Essa razão é ética: não podemos deixar correr este filme como simples observadores.

Médica. Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA 10

 
Quase a um ano de distância das eleições 2015 à esquerda tudo mexe. Apareceu agora o "Podemos" português, radical, com posições muito parecidas com o PCP e o Bloco. Veremos o que dará tudo isto uma vez que todos afirmam querer uma política nova ou uma nova política com corte radical com o Euro, UE, não pagar a dívida, fim da austeridade etc. Querem um polo da esquerda mas tudo fazem nas afirmações produzidas para que tal não se venha a verificar. Divulgo um artigo de Vítor Malheiros que me parece mais sensato e mais viável no caminho proposto para se conseguir
alterações políticas, económicas e sociais que sejam alternativa à situação actual.
 
 
A esquerda não pode perder por falta de comparência
16/12/2014 -
A presença do PS é uma condição necessária para um governo de esquerda. Não por razões ideológicas, mas por razões aritméticas.
Tenho a certeza de que uma maioria significativa dos portugueses deseja que, das próximas eleições legislativas, saia um novo governo que ponha em prática uma política que recuse o modelo austeritário, que defenda os interesses de Portugal na União Europeia e não os interesses dos nossos credores, que seja capaz de encontrar aliados na UE para combater as políticas europeias que põem em causa a democracia, a independência e o desenvolvimento nacional (a começar pelo Tratado Orçamental e pela TTIP-Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), que combata de forma vigorosa as desigualdades e a pobreza, que promova uma educação e uma saúde de acesso universal, que defenda a ciência e a cultura, que combata os poderes ilegítimos e a corrupção, que promova o emprego e a dignidade do trabalho, que garanta um desenvolvimento social e ambientalmente sustentável, que permita enfim a todos os cidadãos uma vida decente numa sociedade democrática.
Ou seja, uma política que seja diametralmente oposta à política lesa-pátria do actual Governo, de favorecimento do capital financeiro, de submissão generalizada aos poderes estrangeiros, de submissão à vontade dos credores, de empobrecimento generalizado da população, de apropriação e delapidação do património do Estado, de destruição dos serviços públicos, de desprezo pela independência nacional, pela democracia e pelas suas próprias promessas eleitorais.
A política que penso que a maioria do povo português deseja é uma política de esquerda, feita em nome de todos os portugueses para servir todos os portugueses e não uma política desenhada para servir grupos de oligarcas, na esperança de vir um dia a integrar as suas fileiras, como aquela que hoje, para nossa tristeza e sua vergonha, os nossos governantes levam a cabo.
Quando se faz um retrato deste tipo, daquilo que seria uma política desejável, é frequente que apareça alguém que nos diz: “Mas isso não é característico de uma política de esquerda. Eu sou de direita e também quero tudo isso!” E, de facto, não é importante o que lhe chamemos. No entanto, o facto é que uma política de combate activo às desigualdades, de erradicação da pobreza, de universalidade de acesso à Saúde e à Educação sem entraves de classe social ou económica, de defesa dos serviços públicos, de combate aos privilégios, de defesa do trabalho e de combate ao poder ilegítimo do capital financeiro é uma política que possui as características de uma política de esquerda.
A grande questão é: com quem se pode contar para pôr em prática essa política?
Em Portugal, os movimentos que têm surgido tendo como ideia central a convergência da esquerda para a construção de um governo de esquerda – em contraponto a uma esquerda instalada no protesto – têm sido acusados de pretender “aproximar-se” do PS apenas para conseguir aceder ao poder. A acusação é por vezes apenas difamatória, outras vezes será uma crítica política séria. A questão é que o PS, a posição do PS, as políticas que o PS irá defender e as que quererá pôr em prática se chegar ao governo são uma questão central para todos nós e, em particular, para todos os que têm urgência de ver uma governação à esquerda. É evidente, e sabemo-lo todos, que a presença do PS no governo está longe de ser uma condição suficiente para uma política de esquerda. Ainda que tenha tomado posições importantes na defesa do Estado social, o PS tem governado à direita e, por vezes, escandalosamente à direita. Mas a presença do PS é uma condição necessária para um governo de esquerda. Não por razões ideológicas, mas por razões aritméticas. Não para fazer do governo um governo de esquerda, mas para fazer da esquerda uma esquerda no governo.
Não se trata de aderir ao PS para o “mudar por dentro”, como tantos no passado anunciaram querer fazer sem êxito (curiosamente, em geral para saírem pela direita do PS), mas de criar um lastro à sua esquerda que produza não só políticas de esquerda viáveis, mas passíveis de recolher o apoio parlamentar necessário. Como partido ideologicamente híbrido que é, o PS vive ele próprio sob a assombração das maldições da direita: a inevitabilidade da austeridade, a imutabilidade das políticas europeias, a invencibilidade do capital financeiro, a impossibilidade de reformar de forma radical a sociedade e a política. E uma das razões que apresenta para o seu “there is (almost) no alternative” é o seu receio de que não exista apoio social e político suficiente para ser algo diferente. É essa dúvida que, quer no plano do apoio social, quer no plano da construção programática, é preciso afastar. É possível uma política de esquerda viável, realista, justa e com amplo apoio social. É este o desafio ao qual a esquerda à esquerda do PS tem de responder e o desafio que tem de lançar ao PS. Se o PS quiser escolher a direita para parceiro de governo ou compère parlamentar que o faça, mas que não diga que foi por falta de comparência que não foi possível governar à esquerda.
jvmalheiros@gmail.com