quarta-feira, 14 de junho de 2017

TURISMO DEPREDADOR


Quando lemos que edifícios históricos de VRSA serão transformados em hotéis de "charme" e na pretensão de um grupo hoteleiro construir um hotel sobre a praia de Monte Gordo, este artigo é oportuno e esclarecedor.
MC

Maria Ramalho



Património, cidade, turismo, negócio y otras cositas más...

O objectivo agora é a eliminação de todos os entraves ao desenvolvimento do negócio imobiliário dentro das áreas centrais das cidades.

14 de Junho de 2017

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Que relação existe entre a morte de dois operários durante a demolição de um prédio histórico da cidade de Lisboa, uma feira de carros dentro de um museu nacional ou a opinião de uma gestora bancária que afirma que a linguagem e a dimensão da cultura e do entretenimento são semelhantes ao negócio bancário?

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Infelizmente têm todos a mesma origem, um sistema económico que, em desespero, derruba os últimos obstáculos à comercialização de todas actividades e de todas as relações sociais. A cultura e o património histórico em particular são agora vistos como excelentes meios de criar a “a atractividade” que faltava à “Marca Portugal” que, cada vez mais, se procura vender lá fora. Não é de agora que se começaram a criar as condições ideais à afirmação desta mentalidade.

No âmbito do património histórico urbano, novos instrumentos legais surgiram como a Lei da Reabilitação Urbana, que isenta de uma série de cuidados a intervenção em edifícios com mais de 30 anos, nomeadamente tudo o que seja um empecilho ao sector da construção agora recauchutado em “sector da reabilitação", usufruindo assim de fundos nacionais e europeus, uma farsa que tarda a ser desmontada. De facto, são as mesmas empresas que antes construíam prédios nas periferias desqualificadas das nossas cidades que agora se dedicam a transformar imóveis de valor histórico em contentores de T1 ou T2, como no caso do edifício que acabou por matar os seus operários. Cada dia que passa mais um destes interessantes edifícios é abatido: Baixa Pombalina, Bairro Alto, Mouraria e por aí fora, espalhando um novo ciclo de especulação na cidade consolidada como nunca se viu, levando ao desaparecimento completo de imóveis ou de interiores extraordinariamente ricos em decoração artesanal de estuques, carpintarias, vitrais, pinturas, ferros forjados e azulejos.

Não há que enganar, é só passear pela cidade e espreitar para dentro dos edifícios em obras para se confirmar que de original nada resta. Miraculosamente, mesmo naqueles imóveis onde é necessário a apresentação de relatório prévio o diagnóstico repete-se: “o edifício é irrecuperável...” — lembrando a velha desculpa das más condições fitossanitárias da pobre árvore que se atreveu a estar no caminho de qualquer novo projecto de paisagismo ou reformulação de tráfego.

Outra oportuna lei vem também abrindo caminho a este rentável negócio — a Lei das Rendas, que acelera o despejo e a reconversão das nossas principais cidades em parques temáticos para turista ver e viver, nada mais restando aos cidadãos que abandonar a ideia de se aproximarem das zonas que mais gostam e irem encher as ditas periferias desqualificadas.

Por outro lado, as estruturas do Estado que poderiam garantir alguma fiscalização estão a ser desmontadas num processo que se poderia apelidar, no mínimo, de perverso: primeiro a asfixia financeira, depois o envelhecimento e o corte de pessoal e, por último, a “captura” de dirigentes que, sem se darem conta de que atentam contra a própria razão da sua existência, enaltecem o valor da rentabilidade dos espaços, da importância do turismo como tábua de salvação do património cultural, que passa a ser visto como qualquer activo económico cada vez mais cobiçado. O objectivo agora é a eliminação de todos os entraves ao desenvolvimento do negócio imobiliário dentro das áreas centrais das cidades onde, tradicionalmente, se concentram os elementos de maior valor histórico, isto até que a última barreira seja derrubada, neste caso conseguir aprovar a “desconcentração de competências na área da cultura”, com os licenciamentos a ficarem nas mãos das autarquias e das CCDR.

É neste ambiente que se torna possível assistir às declarações de um conhecido homem de negócios do Norte, mano a mano com responsáveis da Cultura, usando a mesma linguagem e defendendo o mesmo ideal. Museu Nacional dos Coches, Parque do Côa ou World of Discoveries no Porto é tudo igual, ou será em breve, pois às instituições que não são rentáveis nada mais lhes resta que passarem a ser, nem que isso custe hipotecar a identidade ou colocar de lado a sua verdadeira missão. Afirma-se, assim, uma cada vez maior cumplicidade entre promoção patrimonial e os circuitos financeiros via turismo, em benefício da apelidada indústria cultural que deveria ser questionada na sua essência.



Veja-se o caso do Programa Revive, única iniciativa estruturada para a “reabilitação” do nosso património histórico e que inclui, na sua carteira de negócios, muitos monumentos nacionais destinados, na sua totalidade, à gestão privada mas onde, no entanto, foram recentemente investidos vários milhões de euros dos cofres do Estado, como é o caso do Mosteiro do Lorvão ou do Castelo de Portalegre. Dizem que não há outra saída mas, no entanto, o dinheiro existe, já que estes privados irão ser avantajadamente subsidiados pelo mesmíssimo Estado que poderia criar incentivos a programas de reabilitação mais baratos e mais adequados aos espaços, motivando as comunidades locais a aí se fixarem e desenvolverem actividades certamente mais interessantes do que estar ao serviço do turista.

Desde as destruições de Paris, pela mão de Haussman, e já lá vai mais de século e meio, que a retórica é a mesma, argumentos que desembocam numa visão hegemónica de cidade hoje facilmente apelidada de “cidade imobiliária”, cada vez mais segregada e estratificada, um espaço urbano criado para facilitar o negócio, uma total apropriação privada das condições que foram criadas para o conjunto da sociedade.

O primeiro passo para que algo mude é tomar consciência que não há tempo para dúvidas, nem ingenuidades, que vivemos num ambiente urbano de empobrecimento contínuo onde a normalização e comercialização do património edificado, dos museus e dos espaços públicos é uma realidade a combater, quanto mais não seja pela sua inegável insustentabilidade. 

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Arqueóloga




terça-feira, 21 de março de 2017


Antes era assim.


PLUMA CAPRICHOSA
CLARA FERREIRA ALVES
TÃO FELIZES QUE NÓS ÉRAMOS
Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós
Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.
Eu não ponho flores neste cemitério.
Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.
Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.

sábado, 18 de março de 2017


Tenho andado afastado do blogue há semanas, fiz umas pequenas férias. Hoje li um artigo com o qual concordo em muito do que diz. Aqui fica à vossa apreciação.


JAPinto                                                                 O radicalismo de esquerda e a questão social
O que é perigoso é existirem 116 mil vínculos precários no Estado.
18 de Março de 2017

Começo a ficar preocupado. Não consigo decifrar o conceito político de esquerda radical. Os ideólogos que defendem todos os dias a vinda rápida do diabo para o palco da política nacional consideram a esquerda radical populista e perigosa. Estes construtores de opinião utilizam todas as suas ferramentas intelectuais para incutirem nos cidadãos a ideia de que a esquerda radical tem propostas e soluções políticas que são poesia, irrealistas, utópicas, completamente desligadas do contexto europeu e do resto do mundo.
A esquerda radical é populista e perigosa porque não aceita contaminar o discurso político com questões técnicas. Um bom exemplo disso é o da renegociação da dívida. É muito técnico e complexo e, por isso, é aconselhável não mexer. O PS ainda não venceu este constrangimento. Mesmo assim, este tema tem mais de político do que de técnico. Sem renegociação da dívida não vamos poder continuar a respirar. Sem os recursos da dívida e dos seus juros não há possibilidade de dignificar os serviços públicos, não há dinheiro para reforçar o Estado Social, aumentar salários, pensões e prestações sociais, apoiar as pequenas e médias empresas, melhorar os serviços públicos de saúde e educação, construir equipamentos sociais ou outras infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento do país.
A esquerda radical é populista e perigosa porque não aceita casar-se com o social liberalismo. Com esta coabitação seria mais difícil aumentar o salário mínimo. Os que consideram a esquerda radical populista e perigosa ainda acreditam que a competitividade das empresas depende dos baixos salários e da miséria das remunerações que não retiram da pobreza sequer os que estão empregados.
A esquerda radical é populista e perigosa porque não aceita a doutrina da submissão ao directório económico de Bruxelas que nos impõe o encerramento de serviços, despedimentos, privatizações, desregulamentação das leis do trabalho, cortes nas pensões e salários, aumento de impostos, destruição do Estado Social. Tudo isto para pagar a falência dos bancos privados.
A esquerda radical é populista e perigosa porque só serve para protestar. O caminho de abertura para iniciar reformas estruturantes para o país está condicionado. Mas de que reformas falamos? Privatizar a segurança social? Mexer na Constituição para dar mais benefícios, privilégios e regalias ao grande capital? Privatizar a Caixa Geral de Depósitos?
A esquerda radical é populista e perigosa porque amedronta o investimento estrangeiro. Sem investimento não há criação de riqueza e emprego. Muito bem, concordo. Mas o que dizem as estatísticas é que, em 2016, o crescimento da economia foi de 1,4%, tendo ultrapassado as previsões do governo e de Bruxelas.
O que é perigoso é existirem 116 mil vínculos precários no Estado. O que é perigoso é existirem mais de quatro mil famílias à espera de uma habitação social, o que é perigoso é ainda existirem cantinas sociais para matar a fome diária a mais de 38 mil pessoas, o que é perigoso é a chuva que cai nas salas de aula de muitas escolas. O que é perigoso é existir mais de um milhão de idosos com pensão inferior a 230 euros mensais, mais de 600 pessoas a viver nas ruas de Lisboa sem qualquer tipo de apoio institucional, rendas agiotas que o Estado tem de pagar pelas parcerias público-privadas nos contratos das rodovias e da gestão hospitalar. O que é perigoso é defender a caducidade da contratação colectiva.
A esquerda radical é populista e perigosa porque acredita na acção colectiva organizada dos cidadãos para conquistar direitos e bem-estar social. A esquerda radical é populista e perigosa porque não desiste da luta de classes, não aceita que a vida das pessoas seja menos importante do que a dos mercados. A esquerda radical é populista e perigosa porque não aceita hipotecar a felicidade das pessoas numa taxa de juro ou numa anotação de uma agência de rating. A esquerda radical é populista e perigosa porque não aceita, não se conforma nem acha normal os vampiros comerem tudo e não deixarem nada.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

QUO VADIS REGIONALIZAÇÃO!


A  REGIONALIZAÇÃO  FOI ASSASSINADA

As autarquias andam excitadas dado terem promessas de em ano eleitoral poderem vir a ter mais poderes, competências  e dinheiro.                            A intenção do governo de “descentralizar” para as câmaras municipais áreas das reservas agrícola, ecológica, florestal, estender a intervenção autárquica no ensino, saúde, acção social, segurança e segurança pública, incêndios, fiscalização, áreas portuárias, dar a gestão das áreas protegidas e passar a gestão do património devoluto do estado para os municípios, enchem de alegria os barões e caciques locais, e as câmaras endividadas por gestões incompetentes e ruinosas esfregam as mãos de contentes, finalmente as ovelhas estão sem guardas à disposição dos lobos. Não faltarão planos de pormenor violando os PDM e proporcionando negócios especulativos com as novas áreas dadas de mão beijada aos depredadores da natureza e do património.
 Hoje as CCDRs estão desprestigiadas, situação que vai piorar com a eleição do seu presidente e futuros conselhos directivos (5 elementos no Centro e Norte e 3 no Alentejo e Algarve), pelos eleitos camarários e municipais . O partido maioritário na região terá a presidir alguém da sua confiança política. Como recompensa e aliciante os vencimentos dos boys vão ser aumentados. O Tribunal do Contas assiste à intenção de desresponsabilizar financeiramente os autarcas por ilegalidades cometidas, sinal negativo encorajador da corrupção.                                                       A Justiça é lenta, cara e em muitos casos tem mesmo os olhos vendados, por cada caso vindo a público ficam dez ou quinze perdidos em gavetas e burocracia caso tenha havido queixa. Se não há queixa não há crime. Quem se atreve?
As Assembleias Municipais que deveriam fiscalizar a actividade camarária limitam-se a levantar o braço a mando do chefe local, quando não são elas fiscalizadas pela autarquia e contidas em
respeitinho dado que o tempo não está fácil para encontrar trabalho. A oposição tem também os seus telhados de vidro pelo que não pode fazer muitas ondas.
Na esmagadora maioria dos médios e pequenos concelhos são as autarquias as principais empresas, as que garantam mais postos de trabalho e são as melhores freguesas das empresas e comércio locais. Tirar o chapéu ao Srº Presidente é o mais sensato e conveniente.
Dezenas de sociedades de gestão urbana foram encerradas. As SGUs serviram e servem ainda em muitos casos para esconder dos eleitos e populações as negociatas, fora de qualquer controlo democrático.
As Áreas Metropolitanas terão Presidente e Assembleia Metropolitana eleitas. Que sobra para a Regionalização?
O país fica retalhado em bocados sem qualquer poder político intermédio entre os ministérios e o Poder Local (cada vez mais Poder e mais Local), caminho certeiro para desastres .
A noção de distrito e região vai se diluindo, cada concelho tratará da sua vidinha. Quem vai pensar e planificar para áreas mais extensas que o município?, se preocupe com o despovoamento ou com a coesão económica e social da região?
Nenhum organismo ficará com tal competência e capacidade fiscalizadora  das regras democráticas.
Com o aproximar das eleições estamos a constatar o regresso e o apetite para regressar de ex-autarcas corruptos e corruptores, alguns já com lugar garantido nas listas, confirmando que os partidos, em particular os do velho "arco da governação", não são pessoas políticas de bem, não travam a corrupção e são pedagogos do oportunismo e das negociatas.
A par cresce a pressão para que antes das eleições seja revogado parcial ou totalmente o novo mapa das freguesias e retorno ao antigo ( mais um milhar de freguesias?)
A situação económica, ausência de investimentos promotores de emprego, geram  medo,  subserviência, apatia e minam a democracia e a participação cidadã.
 A presente dinâmica de agravamento das assimetrias regionais impunha que a questão da Regionalização fosse um tema central do debate eleitoral. As medidas já tomadas e as que estão em marcha (querem aprovar o essencial neste trimestre), negam tal possibilidade e anula na prática o disposto constitucional que fará 41anos em Abril e nunca respeitado. Tal já por si só é mais que esclarecedor do pavor que origina. Alguém já viu ou ouviu a Associação Nacional de Municípios batalhar a sério pela Regionalização?
Mas, apesar de boicotada, a Regionalização seria um factor de aprofundamento democrático, legitimada pelo voto dos cidadãos, fiscalizada por eles melhorando a democracia participativa, e deveria haver a possibilidade de listas de cidadãos poderem concorrer eleitoralmente com os partidos às Juntas Distritais.
A Regionalização, está provado por essa UE fora, favorece o ordenamento, o desenvolvimento e a coesão económica e social planificada, corrige assimetrias, maior justiça na distribuição dos fundos estruturais e dos impostos cobrados na região, atrai investimento, defende melhor o ambiente, os recursos naturais  e património, promove a cultura e o turismo.
A Regionalização teria efeito positivo na cooperação transfronteiriça,
A Regionalização não é a panaceia, mas obrigaria a melhorar a própria administração do Estado, concentrando em cinco regiões as dezenas de "divisões administrativas" dos vários ministérios com ganhos de eficiência e comodidade para os cidadãos.
Mas o que teremos nas eleições será uma discussão partidária ansiosa pela tomada do poder, frequentemente sem ética, misturada com problemas nacionais, que afogará um debate sério sobre os problemas regionais.

Quo Vadis Regionalização!


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

1º de Dezembro


https://www.youtube.com/watch?v=CX2roSxua3k



https://youtu.be/et7htg-wHZA?t=14



https://youtu.be/HmSh5iBW9rI?t=22



O Hino da Restauração , foi criado, em 1861, por Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida (1820-1869) para uma peça teatral – 1640 ou a Restauração de Portugal. dedicada ao rei D. Pedro V e estreada no dia de aniversário do rei-viúvo D. Fernando II. O Hino da Restauração era o tema que acompanhava a apoteose final de coroação de D. João IV. Criado em plena Monarquia, a letra deixava de poder ser cantada após a proclamação da República.  Porém, a grande popularidade do Hino, permitiu-lhe sobreviver ao repúdio que maioritariamente os símbolos monárquicos provocavam e a letra terá sido adaptada, tanto mais que foi o regime republicano que determinou que o dia 1º de Dezembro fosse feriado nacional. O hino foi amplamente utilizado pelo regime ditatorial que de Maio de 1926 a Abril de 1974 ocupou o poder. Eis algumas das alterações feitas à letra. A letra original dizia:

Lusitanos é chegado o dia da redenção. /Caem do pulso as algemas. /Ressurge livre a Nação.

Sendo substituída por:

Portugueses celebremos o dia da redenção/em que valentes guerreiros/nos deram livre a Nação.

 Onde se dizia: 

O Deus de Affonso, em Ourique/Dos livres nos deu a lei:/Nossos braços a sustentem,/Pela pátria, pelo rei

Passou a dizer-se:

A Fé dos Campos d’Ourique/Coragem deu, e Valor,/Aos famosos de quarenta,/Que lutaram com ardor.

 Foram também da letra original retiradas as referências à Casa de Bragança. Tudo isso é natural. Registe-se que o hino sobreviveu à febre antimonáqrquica e sobreviveu ao aproveitamento que o regime salazarista dele fez. Os portugueses, em geral, não conhecem a letra, mas sabem de cor a música. Veja-se com que entusiasmo o cantam em Elvas.

O governo Passos/Portas com a aprovação do Parlamento e o silêncio do Cavaco na altura Presidente da República, extingue um feriado que a I República criou, conservando feriados religiosos que só os crentes (talvez) saibam o que significam. Um feriado, que, símbologia monárquica aparte, possuem um alto significado patriótico. Mas as datas significativas para os patriotas, nada significam para quem tem outras fidelidades a respeitar. O Hino da Restauração entra na categoria das «canções de intervenção».





O FERIADO RECUPERADO

Mais do que um simples feriado o 1º de Dezembro tem uma simbologia marcante. Hoje não é contra Espanha, mas sim a memória da recuperação de uma identidade histórica, cultural e linguística que já tinha séculos de existência.

A diversidade peninsular é uma riqueza e seria ainda maior se a Catalunha, o País Basco e mesmo a Galiza tivessem  organização política num grau superior às actuais autonomias. A Ibéria que foi durante séculos objectivo de hegemonização castelhana (que ainda perdura nos nacionalistas reaccionários espanhóis), o qual causou inúmeras guerras e batalhas, deixando um lastro de destruição, violência e atraso.

Sem o 1º de Dezembro de 1640 estaria neste momento a escrever em castelhano e a nossa língua seria uma recordação histórica só estudada e conhecida por historiadores e linguistas interessados, e perdido um conjunto de sons e gestos com os quais comunicamos sem qualquer ganho para a humanidade.

Vem isto a propósito de um livro que leio nesta tarde chuvosa, de Thomas Piketty (alguns o consideram exageradamente o novo Marx), que se intitula "Podemos salvar a Europa?"

Livro para se ler devagar e pensar sobre o que se lê. A Europa e não só a UE atravessa uma crise que assusta, vemos como regressam e ganham espaço as ideias fascistas que dominaram parte da Europa no Secº XX, que provocaram guerras civis, duas guerras mundiais destruindo países, enchendo os cemitérios com dezenas de milhões de mortos e dezenas de milhões de refugiados vagueando sem futuro fora das suas zonas de origem.

- Qual a causa?

A principal do mal estar europeu é a economia ao serviço do lucro, da ganância impune, e não ao serviço das pessoas.

Durante a maior parte da minha vida, raiano como sou, ir a Espanha era um problema apesar dos regimes semelhantes dos dois lados da fronteira. Esta era mais do que um limite geográfico, era um muro muito mais forte e eficaz do que o muro do Trump. Era o muro do silêncio.

Não quero regressar a esses tempos, de nacionalismos excluindo os outros, de fronteiras físicas, políticas e culturais fechadas a cadeado. Quero a diversidade europeia que enriquece e na qual posso viajar com a mesma moeda, passando fronteiras respeitando quem lá está.

Temos é de combater as ideias do retorno às fronteiras, ensimesmadas em si mesmo, de nacionalismos violentos sem futuro no mundo que se globaliza ao toque dos interesses da exploração do trabalho. Sim, acredito que Podemos salvar a Europa.

MCoelho











Para terminar junto um artigo esclarecedor sobre o folhetim da Caixa Geral de Depósitos.



Ricardo Cabral



O pânico é mau conselheiro

1 de Dezembro de 2016

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Em matéria financeira e de banca a percepção importa mais do que os factos, para o bem e para o mal. Por essa razão, sobretudo após a apresentação, imperfeita e “às pinguinhas” do plano de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) proposto por António Domingues, passou a ser facto assente que a CGD necessita de um muito significativo aumento de capital, que o Ministério das Finanças informa será de cerca de 5,2 mil milhões de euros.

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A CGD, de acordo com a informação disponível, cumpre os requisitos legais exigíveis mas, segundo a imprensa, terá falhado o teste de stress no cenário adverso em 2 mil milhões de euros. Mas vejamos.

Os rácios de capital da CGD estão confortavelmente acima dos rácios mínimos obrigatórios. O rácio de capital que se afigura mais importante, o rácio de alavancagem financeira, era de 5,7% no final de 2015, quase o dobro do valor mínimo recentemente proposto pela Autoridade Bancária Europeia (3%).

Em contraste, o Deutsche Bank e o Santander declaram possuir rácios de alavancagem financeira de 3,4% e 4,9% respectivamente. Acresce que a CGD, é um dos bancos nacionais que menos depende do financiamento do Eurosistema e possui uma posição de liquidez robusta.

O anterior Governo e o Banco de Portugal negociaram com a Comissão Europeia um acordo de recapitalização da CGD desastroso para a Caixa e para o País. Entre outras coisas obrigou à venda da posição na Caixa Seguros (que incluía a Fidelidade) e de participações consideradas não estratégicas pelo anterior Governo, como a Cimpor e a PT, com as consequências que são hoje conhecidas (desmantelamento da Cimpor e da PT, venda da Fidelidade à Fosun).

Além disso a “recapitalização” da banca, em 2012, foi insatisfatória porque realizada em larga medida através de empréstimos subordinados (os chamados “CoCos”). Em resultado, a CGD está obrigada a devolver 960 milhões de euros de CoCos ao Estado e essa é, no presente, uma das principais dificuldades enfrentadas pela CGD.

Finalmente, o principal desafio é o crédito em risco (12,3% do total) e o crédito vencido (7,2% do total). Mas, o primeiro está coberto por imparidades ou provisões a 63% e o segundo a 103%. Insuficiente, argumentarão alguns.

Mas, considere-se, por exemplo, o caso do Nord/LB, que é um dos maiores bancos públicos e um dos maiores bancos comerciais da Alemanha. É certo que o crédito vencido desse banco representa apenas 4,8% do crédito total (em comparação com os 7,2% da CGD), mas o crédito em risco representa 11,2% do crédito total (CGD 12,3%). E além disso as provisões do banco relativas à carteira de crédito são diminutas, se compararmos com a CGD: representam 17% do crédito em risco e 40% do crédito vencido.  O rácio de alavancagem financeira desse banco era de 4,3% no final de 2015. Muito abaixo, por conseguinte, do rácio de alavancagem da CGD.

Sendo assim, porque é que se está em pânico acerca da CGD e não acerca do Nord/LB? O medo é mau conselheiro. E as autoridades portuguesas competentes fariam bem em proceder com muita cautela e de modo muito seguro, à semelhança do que fazem a Alemanha e a Itália com os seus maiores bancos.

António Domingues e a sua equipa demitiram-se. O Governo pretende agarrar-se ao plano de António Domingues para a CGD e obrigar a futura administração a segui-lo à risca. Compreende-se que não queira pôr em causa o “pré-acordo” com Bruxelas. Mas faria bem em recomeçar de novo, não só em relação à administração da CGD, como também em relação ao plano de recapitalização e de reestruturação da CGD.




sábado, 12 de novembro de 2016

ELEIÇÕES TRUM(CADAS)P...



As eleições nos USA coincidiram com três dias de grande balbúrdia na minha vida pessoal e familiar. Fui acompanhando pelo canto do olho o acontecimento e na noite de terça para quarta, pelas 2H da noite quando me fui deitar ia já convencido da vitória do Trump.

Mais uma vez as sondagens falharam, ou porque perguntaram às pessoas erradas para obter as respostas que queriam para manipular a opinião pública, ou porque  jornais e jornalistas vivem também em mundos viciados e contaminados pelo poder político e económico.

Hoje é que tive tempo para ler os jornais acumulados, e fiquei espantado como tanta gente sabia as causas e os efeitos da vitória Trump mas depois de encerradas as urnas. Diagnósticos depois do jogo é fácil, mas não me recordo de antes ter lido estas profundas análises políticas, sociológicas e até psicológicas do candidato e do povo americano.

É a terceira vez que nos USA "ganha" o candidato que menos votos obteve, neste caso a Clinton teve mais 395 votos.

Mas, nuns com mais clareza, em outros de forma mais camuflada, o denominador comum começa a responsabilizar a política económica e financeira do liberalismo (uso este termo para simplificar) como a causa fundamental da crise de 2008 e do fenómeno Trump, o empreiteiro vigarista da especulação imobiliária que durante 18 anos não pagou impostos e depois de eleito presidente fala só em reconstruir estradas, pontes, cidades etc.

Foi uma campanha Trump baseada nos medos das vítimas do liberalismo, cada vez mais desorientadas com o declínio e degradação da democracia, que olham em volta e não encontram alternativas partidárias que os representem e nas quais acreditem quer nos USA quer em muitos países da UE e não só. Num país de emigrantes, no começo só existiam os índios, assistimos a um ataque xenófobo contra o outro, o "invasor criminoso!". Nada aprenderam com o Brexit, com a Le Pen, com Orban, os polacos, o Duterte, o Farage, o Geert Wilders, o Temer, a extrema direita que se fortalece na Finlândia, Áustria, Itália, Alemanha e mesmo os Erdogans e Putins deste mundo, ou como um Junker que preside à Comissão da UE depois de andar anos e anos a transformar o Luxemburgo num paraíso fiscal, sonegando dinheiro para ele de impostos que deveriam ser pagos em Portugal, ou dessa Holanda do holandês de nome esquisito que preside ao Eurogrupo e que se converteu também em paraíso fiscal para os "belmiros e santos" portugueses, ou dos "durões" que transitam alegremente de cargos políticos importantes para as cadeiras estofadas de bancos odiados pelo seu papel na destruição da vida de milhões de pessoas.

O envergonhado diagnóstico da causa propõe, para tratar o doente, mais do mesmo veneno, mais CETA, mais TTIP, mais punições a países forçados a endividarem-se para conseguirem atenuar a irresponsabilidade de "ceos" pagos a preço de ouro que arruinaram a economia mundial, continuação dos paraísos fiscais, degradação ou eliminação dos serviços públicos (saúde, educação), privatização da justiça e mesmo da polícia e forças armadas, fim dos direitos sociais e laborais, imprensa "domesticada", manutenção das guerras de "baixa intensidade" etc.

Caricato e que deve regozijar muita gente é vir de Trump a classificação da NATO como coisa obsoleta a pôr fim. Quem diria!

O medo tem cheiro, acho que já se sente o enxofre.

MC
Junto dois textos que na minha opinião são oportunos e esclarecedores.


Agora é mesmo a sério
12/11/2016
Substituindo “migrações” por “judeus”, parece que estamos em 1933: o que os nazis pretendiam fazer com os judeus era, também então, “vital” para a Europa e para a Hungria, que em 1938 adotou legislação própria para os discriminar; em 1942-44, 600 mil judeus húngaros foram mortos.
1. A vitória de Trump normaliza a extrema-direita. Trump passará a ser tratado com toda a normalidade pelos media e pelos governos. Como se um novo tempo tivesse começado – ou regressado... O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, acha que, com a vitória de Trump, a “civilização quebrou uma barreira ideológica para regressar à verdadeira democracia”. Somando o que tem sido o governo de Orbán e as propostas de Trump, a “verdadeira democracia” que aí vem é feita de policiamento e militarização generalizados, controlo dos media, racismo e intimidação das minorias, manipulação das maiorias. Que a extrema-direita tenha conseguido convencer grande parte da opinião pública de que estas são opções necessárias para resolver os nossos problemas, que se trata de bom senso depurado de politicamente correto, é porque uma grande parte do espaço mediático e de quem domina politicamente o Ocidente assumiu as mesmas bandeiras e práticas. É por isso que, para Marine Le Pen, a vitória de Trump “não é o fim do mundo [mas] apenas o fim de um certo mundo” - por outras palavras, o fim de um regime. E a promessa de um novo.
2. Uma sociedade que sacraliza a riqueza escolhe ricos para a representar. Trump, como já Berlusconi o foi, é um símbolo da suprema aspiração do capitalismo: transformar o dinheiro em exercício de poder e domínio sobre os outros. Para esta gente, quem é rico é-o por mérito próprio - o mérito de manipular o mercado, da lei do mais forte e da conquista de espaço mediático. Trump e Berlusconi fizeram fortuna à custa de ligações com o mundo político e judicial, esfregando nos olhos do boquiaberto espetador de TV a sua riqueza e os produtos dela.
Um dia, ou porque os seus emissários no poder político caem em desgraça (caso de Berlusconi nos anos 90), ou porque o ego os empurra para a aventura, lançam-se diretamente na arena política e apresentam-se como campeões da mesma retórica anti-plutocrática do fascismo dos anos 30: um dos homens mais ricos dos EUA, que está no centro da oligarquia americana, denuncia as maldades do sistema e promete vingar as vítimas do empobrecimento.
Há 80 anos, os nazis diziam exatamente a mesma coisa – mas, salvo os judeus cujos bens foram expropriados, nunca os grandes patrões alemães ganharam tanto dinheiro como sob o nazismo, guerra incluída. Pelos vistos, não há nada de mais convincente que um rico que, em nome dos pobres, se queixa dos outros ricos. “Quem criou este pesadelo em que nos encontramos  foi o neoliberalismo”, cuja “mundividência é plenamente corporizada por Hillary Clinton e a sua máquina”, lembra Naomi Klein. “O que é preciso entender é que há um monte de gente em sofrimento. Sob políticas neoliberais de desregulação, privatização, austeridade (...), os seus padrões de vida caíram a pique. Perderam empregos, pensões, muita da rede de segurança que costumava tornar menos assustadoras as suas perdas. Anteveem o futuro dos seus filhos ainda pior do que o seu presente precário.” Se a sua resposta é “atacar imigrantes e negros, insultar muçulmanos e humilhar mulheres”, limitam-se  a reproduzir os comportamentos de quem manda (Guardian, 10.11.2016).
3. O racismo à solta. Orbán já em julho dissera que “a política externa e de migrações defendida [por Trump] é boa para a Europa e vital para a Hungria”. Substituindo “migrações” por “judeus”, parece que estamos em 1933: o que os nazis pretendiam fazer com os judeus era, também então, “vital” para a Europa e para a Hungria, que em 1938 adotou legislação própria para os discriminar; em 1942-44, 600 mil judeus húngaros foram mortos. A euforia da extrema-direita sente-se já todos os dias na rua, nas agressões a negros, a latino-americanos e a muçulmanos nos EUA, na caça ao estrangeiro na Grã-Bretanha, na perda total da vergonha racista em França, na Alemanha, na Europa Centro-Oriental.
A vitória de Trump confirma (como antes as de Berlusconi) que é perfeitamente possível assumir um programa desavergonhadamente racista contra uma parte dos subalternos (muro contra mexicanos=violadores e criminosos; expulsão de refugiados sírios; intimidação dos afroamericanos; humilhação de mulheres e de minorias sexuais) e ganhar-se a condescendência da maioria: “ele não fará nada do que diz...”, é o que julgam muitos dos que nele votaram. Os livros de História estão cheios de citações de quem, com Hitler, julgava exatamente o mesmo. A extrema-direita ainda pode ser travada. Mas só se levada a sério e a sério combatidas as condições que permitem o seu avanço.


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Trumpificação e o que de pior poderia haver em 2016
Por Francisco Louçã
12/11/2016
Tome nota, por favor: o centro deste risco é a Europa, que acumulou os maiores erros ao longo da década e os vai pagar agora com a trumpificação da sua política na França e na Alemanha.
No final de 2015, diversas instituições publicaram as suas listas de pesadelos sobre tudo o que de pior poderia acontecer em 2016. Em resumo, temiam três famílias de riscos, a que chamam os “cisnes negros” ou o improvável mas que pode ocorrer: Brexit e crise europeia, acidentes financeiros e degradação económica, eleição de Trump e crise da globalização. Admitia-se então que estes seriam cenários extremos e pouco prováveis. Ora, só com mês e meio para ver o que mais virá neste ano, o quadro já não é simpático.
A Bloomberg, baseada em inquéritos a empresários de topo, fez então um ranking dos pesadelos e apresentou um gráfico com o cálculo dos seus efeitos. Os três piores seriam um ataque do Daesh aos pipelines do Médio Oriente fazendo subir o preço do petróleo, o Brexit e um ciberataque destrutivo contra a banca internacional.
A eleição de Trump, em contrapartida, só seria viável se Clinton desistisse. Provocaria uma grande incerteza que favoreceria a indústria militar, um arranjo com a Rússia para uma nova Guerra Fria deslocada para o Pacífico e impactos imprevisíveis na ordem internacional, mas seria do domínio dos impossíveis. Na União Europeia, o pesadelo seria a saída do Reino Unido, o enfraquecimento de Merkel e o recuo do BCE na política de expansão monetária. Na economia, os piores cenários seriam um fraco crescimento chinês ou a aceleração do aquecimento climático com efeitos devastadores na agricultura e acesso a água. Outro focos de tensão poderiam ser o Brasil se Dilma fosse afastada e a Venezuela se a crise se prolongasse. Como é bom de ver, os pesadelos chegaram pela calada do dia.
Outra instituição que apresentou os seus cenários foi o The Economist: o pior, embora com baixa probabilidade, seria a eleição de Trump, que destabilizaria a economia global. A União Europeia poderia fracturar-se se o Reino Unido saísse, se a crise dos refugiados criasse novas tensões internas e atingisse Merkel e se a Grécia fosse empurrada para fora do euro.
De tudo isto, já temos quanto baste – mas só pode piorar.
Primeiro, a crise europeia: muros contra os refugiados e ascenso da xenofobia, aventura de Cameron no referendo britânico, sangria da Grécia. Mas vem mais: referendo em Itália e eleições austríacas em Dezembro e depois eleições francesas e alemãs em 2017. Cada um destes processos só pode acentuar a crise europeia.
Segundo, a vitória de Trump. Ameaça imediata, renegar o Acordo de Paris sobre alterações climáticas. Mas olhe para o governo que se perfila, com o peso dos tubarões de Wall Street e a ressurreição dos profetas conservadores, e percebe-se o que está a chegar: maná dos céus para a finança e o neoliberalismo casado com o autoritarismo, como nos seus mais esfusiantes momentos.
Há no entanto um pesadelo de que ainda não acordámos, uma nova crise financeira. A pergunta, aliás, não é se ocorrerá, é quando ocorrerá. O aumento da volatilidade nos mercados financeiros e a acumulação de dívidas são as consequências de uma política ameaçadora: o BCE espalhou dinheiro que valorizou as acções mas não o investimento, enquanto as taxas de juro negativas comprimiam as margens bancárias e estimularam novas operações financeiras de risco, de que o Deutsche Bank é o exemplo mais conhecido (o valor nocional dos seus derivados é superior ao valor do PIB mundial). Ou seja, o nosso problema são as soluções para o problema.
Chegados ao fim de 2016, temos então uma crise da procura mundial e zero capacidade para responder a uma recessão, porque os bancos centrais não podem fazer nada. Tome nota, por favor: o centro deste risco é a Europa, que acumulou os maiores erros ao longo da década e os vai pagar agora com a trumpificação da sua política em França e na Alemanha.