Charingado é um termo algarvio polivalente que significa lixado,chateado,zangado,e que é usado correntemente com expressões e intenções diversas.
sábado, 24 de maio de 2014
quinta-feira, 15 de maio de 2014
MISÉRIA MORAL EM TEMPO ELEITORAL
Opinião
Miséria social,
miséria moral: mais pobres, mais frágeis
06/05/2014 - 02:57
A grande herança do Governo PSD-CDS no final
do “programa de ajustamento” é a reinstituição do medo.
Voltaire dizia que “quase toda a
História é uma sequência de atrocidades inúteis”. A frase adapta-se como uma
luva ao “programa de ajustamento” a que Portugal foi submetido nos últimos anos
pelo Governo de Passos Coelho, pelos seus “parceiros” europeus e pelo FMI. As atrocidades a que fomos
submetidos não são os horrores da guerra que estavam na mente do filósofo
francês, mas continuam a ser as velhas misérias sociais e um novo tipo de
miséria moral de que Passos Coelho ou Paulo Portas são simultaneamente
propagandistas e exemplos.
As
misérias sociais estão à vista: desemprego,
precariedade, subemprego, emigração forçada, salários mais baixos, pensões mais
baixas, aumento da pobreza e da miséria extrema, mais pessoas sem qualquer
rendimento e sem apoios sociais, mais crianças pobres, mais velhos pobres, mais
crianças com fome, menos acesso à saúde, menos acesso à educação, mais abandono
escolar, menos serviços públicos, mais depressão.
A
miséria moral é aquela que foi sendo insidiosamente
instilada na sociedade pela atitude do poder e pelo seu discurso, pelo seu
recurso despudorado à mentira sistemática tornada banal, pelo seu uso da
desconfiança como instrumentos de manipulação do público.
Não é surpreendente que, depois de
Passos Coelho, de Paulo Portas, de Miguel Relvas, de Maria Luís Albuquerque, de
Poiares Maduro tenhamos passado a considerar comum a falta de honorabilidade
dos governantes, fazendo
crescer o descrédito na democracia. Hoje vê-se como inevitável a promiscuidade
entre políticos e negócios e aceitamos que a verdade, como antes acontecia na
guerra, seja a primeira baixa da política.
O
Governo conseguiu difundir uma cultura de desprezo pelos velhos e pelos doentes, apresentando-os como gastadores de recursos sem
préstimo e como abusadores dos direitos sociais. Conseguiu impor um clima de confronto entre desempregados e
trabalhadores, apresentando a estabilidade de emprego como pecaminosa e
um obstáculo à competitividade. Conseguiu lançar uma guerra de gerações entre velhos “privilegiados”
por terem pensões e jovens a quem foi dito que estavam em risco de nunca
receber reformas devido aos “privilégios” dos seus pais e avós. O Governo
conseguiu minar consensos
sociais laboriosamente construídos ao longo de 40 anos de democracia, como o
acordo sobre a necessidade de investir na escola inclusiva, na formação de alto
nível e na investigação – que passou a ser referida na narrativa oficial como
uma actividade “pouco produtiva” e longe da “economia real”. O Governo
conseguiu apresentar sistematicamente a máquina do Estado como uma “gordura” improdutiva, um aparelho inútil e
despesista, formado por burocratas preguiçosos e incompetentes, pondo trabalhadores do sector
privado contra funcionários públicos
e destruindo uma filosofia de serviço público e uma ética de trabalho com
séculos de consolidação, para
melhor desmantelar o Estado
social. E impôs por
todos os meios possíveis a agenda neoliberal segundo a qual o trabalho é uma
mera mercadoria sem dignidade particular, cujo valor deve ser tão reduzido
quanto possível.
A
miséria moral que este panorama evidencia pode ser
menos visível do que os dramas da pobreza, mas é infinitamente mais grave,
porque abre fracturas de hostilidade e desconfiança na sociedade que levam
muitos anos a reparar.
O sucesso ímpar do Estado social após a
Segunda Guerra Mundial não se deveu apenas aos serviços que o Estado fornecia,
mas ao clima de estabilidade e de cooperação, de confiança nos outros e no
futuro que esses serviços possibilitaram. O grande sucesso do Estado social foi
a derrota da insegurança e do medo – do medo da doença, do desemprego, do
futuro.
A
grande herança do governo PSD-CDS no final do “programa de ajustamento” é a reinstituição
do medo e da insegurança como elemento central da vida social e como
instrumento estatal de “regulação social”.
E, com ele, a desconfiança e a desesperança. Dividir para reinar é uma receita eficaz, como
todos sabemos.
E a grande herança do Governo PSD-CDS na
prática política é a crescente
banalização da mentira e a glorificação do despudor. O sofrimento não
nos deixou melhor do que antes. As atrocidades só serviram os saqueadores.
A “saída limpa” que o Governo anunciou
este fim-de-semana não é nem uma saída nem limpa, como qualquer pessoa com um
mínimo de honestidade admite – porque a fragilidade da nossa situação
financeira é igual ou pior do que era, porque permanecemos submetidos a uma tutela externa com direito de veto de
facto das políticas nacionais. Mudámos apenas de suserano: antes eram os
nossos “parceiros” europeus, amanhã serão os “mercados”. A diferença entre um
“programa cautelar” e uma “saída limpa” é a que existe entre o lume e a
frigideira. A chantagem é a mesma, apenas muda o agente. E a instabilidade é
maior.
Quando
a UE refere os “progressos impressionantes” que Portugal realizou, faz um
exercício de hipocrisia. Estamos economicamente mais pobres e socialmente mais
frágeis. Mais temerosos e mais divididos. Só pode achar que isto é um sucesso
quem tivesse este objectivo.
jvmalheiros@gmail.com
A ECONOMIA IMORAL
Opinião
Da Economia como
ciência pragmática
Por Fernando Belo
12/05/2014 - 01:22
As crises são as sociedades a tornarem-se laboratórios exibindo o que falta
às ciências.
1. Um velho texto de António J. Esteves, sociólogo da Universidade do
Porto, que evoca as engenharias como “ciências de projecto” de Herbert Simon
para incluir nelas a Economia, trouxe-me algo que procurava há vários anos.
Segundo ele, “a determinação de ‘como as coisas podem ser’ e de ‘como devem
ser’ para a realização de determinados objectivos delimita um conjunto de
saberes que não se resumem às disciplinas científicas nem à sua ‘aplicação’”,
diz Esteves, o projecto da Economia devendo ser “uma nova politica de bem estar
social para um Estado” (H. Simon) (1). Ciência de acção e portanto de
mudança, pragmática assim, a sua verdade consistirá na transformação que ela
consiga operar nas estruturas sociais sobre que incide, implicando a definição
de objectivos.
2. Era esta descrição que me
escapava, modesto fenomenólogo praticante de filosofia com ciências.
Sendo uma ciência dos mercados, a economia é apenas uma ciência social entre
outras que a ausência duma ciência global das sociedades capitalistas levou a
ocupar esse lugar, indevidamente por certo mas a apelo do vazio. O seu carácter
sectorial implica que os ‘objectivos’ a reconhecer-lhe não dependem
exclusivamente dela mas de algo que a ultrapassa: a dupla grande crise que atravessamos, económica - financeira
e climática, orienta o nosso olhar para o mais largo objectivo da Economia, a perpetuação
da espécie humana, posta em questão por duas questões dramáticas, o enorme
desemprego jovem (que futuro daqui a 30 anos?) e as consequências da
progressiva alteração dos climas (que futuro daqui a 100 anos?). Estas
duas questões impõem à Economia a consideração da nossa condição biológica como
axioma imperativo, se dizer se pode: qualquer animal tem como problemas
principais comer e proteger-se de ser comido e a sociedade começa por ser uma
forma cooperativa mais económica de enfrentar esses problemas. No que dependa da Economia, há que
garantir a alimentação (o “bem estar social” de que falava Simon, a que
chamamos na Europa o Estado social) e a protecção de todos os cidadãos, a nossa
liberdade (o Estado de direito). O imperativo estende-se à salvaguarda do
planeta que nos dá a vida: a este nível, de que não me ocuparei, o papel da
Economia será nomeadamente o de remover obstáculos derivados da arbitrariedade
da especulação financeira.
3. Ora, a Biologia oferece também uma espécie de modelo para delinear os
objectivos da Economia, à maneira da Medicina. Sabemos hoje que há uma
inter-relação entre a determinação genética que diz respeito à reprodução das
moléculas de cada célula do organismo e a circulação do sangue (que as alimenta
a todas elas), a qual, instável, deve ter uma estabilidade homeostática cujos
limiares, máximo e mínimo, são o objectivo médico, a nossa saúde:
tensão arterial, seus teores variados (análises de sangue), mormente os de
nutrientes e oxigénio. Para o que nos interessa aqui, este imperativo da saúde
cifra-se em não se comer nem de mais nem de menos. O que nos tem chocado a todos nesta crise é ver-se a
maior parte da população ser despojada mais ou menos brutalmente do que tem
para viver, muitos do emprego, outros de parte do salário ou da pensão,
enquanto que os muito ricos enriquecem e põem os capitais a darem dividendos lá
fora.
4. O escândalo é que, aos olhos da
Economia, isto parece ser apenas algo de lamentável, nem sequer ‘imoral’: o
argumento com que nos enchem os ouvidos é o da ‘credibilidade’ junto dos
grandes capitais especulativos, ditos ‘mercados’ (como se fossem honestas
mercearias). Ou seja, este baixar até à miséria de milhões de pessoas e a
grande riqueza de poucos milhares não é nada que pareça dizer respeito à
Economia enquanto ciência, algo que é deixado como preocupação aos políticos. Nela não haver
respeito pelos limiares mínimos e máximos da Economia, faltar no seu arsenal
axiomático o que define os seus objectivos enquanto ciência da ‘habitação’ (oikos,
casa). No entanto, a crise ilustra como proceder na homeostasia social, na
estabilidade instável (Prigogine) das conjunturas: garantir os mínimos (o
Estado social) – que deverão ir até ao pleno emprego, diminuindo as horas de
trabalho de todos para que todos o tenham – e corresponder a essas despesas com
impostos (é a social-democracia) sobre a propriedade ‘privada’ (do social), a
qual só vale por essa ‘privação’ que lhe dá contexto (ou seja, os impostos são devolução ao social duma parte do
recebido dele). O nosso
governo troikista, pelo contrário, forçou aquém dos mínimos sociais sem
qualquer pudor, para garantir os máximos aos credores que vivem de especulação
– jogam com títulos para lá, títulos para cá –, sem que a Economia enquanto
ciência pareça ter algo a dizer a esse respeito, como se fosse apenas uma
questão moral, ou o fatalismo de “as coisas serem como são”.
5. Não sou de economia nem
de qualquer outra área social e percebo a dificuldade imensa de uma ciência
económica global e que pretenda domesticar os capitais internacionais. Mas as
crises são as sociedades a tornarem-se laboratórios exibindo o que falta às
ciências, pedindo para as reformular, se ainda for a tempo. Ou para o que
sobrar de espécie humana.
Filósofo
Um artigo para nos fazer pensar.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Nestes tempos tão complicados e incertos que geram tanta perplexidade e confusão, juntamos dois artigos que certamente ajudarão a compreender o que se passa.
Opinião
Miséria social,
miséria moral: mais pobres, mais frágeis
06/05/2014 - 02:57
A grande herança do Governo PSD-CDS no final
do “programa de ajustamento” é a reinstituição do medo.
Voltaire dizia que “quase toda a
História é uma sequência de atrocidades inúteis”. A frase adapta-se como uma
luva ao “programa de ajustamento” a que Portugal foi submetido nos últimos anos
pelo Governo de Passos Coelho, pelos seus “parceiros” europeus e pelo FMI. As atrocidades a que fomos
submetidos não são os horrores da guerra que estavam na mente do filósofo
francês, mas continuam a ser as velhas misérias sociais e um novo tipo de
miséria moral de que Passos Coelho ou Paulo Portas são simultaneamente
propagandistas e exemplos.
As
misérias sociais estão à vista: desemprego,
precariedade, subemprego, emigração forçada, salários mais baixos, pensões mais
baixas, aumento da pobreza e da miséria extrema, mais pessoas sem qualquer
rendimento e sem apoios sociais, mais crianças pobres, mais velhos pobres, mais
crianças com fome, menos acesso à saúde, menos acesso à educação, mais abandono
escolar, menos serviços públicos, mais depressão.
A
miséria moral é aquela que foi sendo insidiosamente
instilada na sociedade pela atitude do poder e pelo seu discurso, pelo seu
recurso despudorado à mentira sistemática tornada banal, pelo seu uso da
desconfiança como instrumentos de manipulação do público.
Não é surpreendente que, depois de
Passos Coelho, de Paulo Portas, de Miguel Relvas, de Maria Luís Albuquerque, de
Poiares Maduro tenhamos passado a considerar comum a falta de honorabilidade
dos governantes, fazendo
crescer o descrédito na democracia. Hoje vê-se como inevitável a promiscuidade
entre políticos e negócios e aceitamos que a verdade, como antes acontecia na
guerra, seja a primeira baixa da política.
O
Governo conseguiu difundir uma cultura de desprezo pelos velhos e pelos doentes, apresentando-os como gastadores de recursos sem
préstimo e como abusadores dos direitos sociais. Conseguiu impor um clima de confronto entre desempregados e
trabalhadores, apresentando a estabilidade de emprego como pecaminosa e
um obstáculo à competitividade. Conseguiu lançar uma guerra de gerações entre velhos “privilegiados”
por terem pensões e jovens a quem foi dito que estavam em risco de nunca
receber reformas devido aos “privilégios” dos seus pais e avós. O Governo
conseguiu minar consensos
sociais laboriosamente construídos ao longo de 40 anos de democracia, como o
acordo sobre a necessidade de investir na escola inclusiva, na formação de alto
nível e na investigação – que passou a ser referida na narrativa oficial como
uma actividade “pouco produtiva” e longe da “economia real”. O Governo
conseguiu apresentar sistematicamente a máquina do Estado como uma “gordura” improdutiva, um aparelho inútil e
despesista, formado por burocratas preguiçosos e incompetentes, pondo trabalhadores do sector
privado contra funcionários públicos
e destruindo uma filosofia de serviço público e uma ética de trabalho com
séculos de consolidação, para
melhor desmantelar o Estado
social. E impôs por
todos os meios possíveis a agenda neoliberal segundo a qual o trabalho é uma
mera mercadoria sem dignidade particular, cujo valor deve ser tão reduzido
quanto possível.
A
miséria moral que este panorama evidencia pode ser
menos visível do que os dramas da pobreza, mas é infinitamente mais grave,
porque abre fracturas de hostilidade e desconfiança na sociedade que levam
muitos anos a reparar.
O sucesso ímpar do Estado social após a
Segunda Guerra Mundial não se deveu apenas aos serviços que o Estado fornecia,
mas ao clima de estabilidade e de cooperação, de confiança nos outros e no
futuro que esses serviços possibilitaram. O grande sucesso do Estado social foi
a derrota da insegurança e do medo – do medo da doença, do desemprego, do
futuro.
A
grande herança do governo PSD-CDS no final do “programa de ajustamento” é a reinstituição
do medo e da insegurança como elemento central da vida social e como
instrumento estatal de “regulação social”.
E, com ele, a desconfiança e a desesperança. Dividir para reinar é uma receita eficaz, como
todos sabemos.
E a grande herança do Governo PSD-CDS na
prática política é a crescente
banalização da mentira e a glorificação do despudor. O sofrimento não
nos deixou melhor do que antes. As atrocidades só serviram os saqueadores.
A “saída limpa” que o Governo anunciou
este fim-de-semana não é nem uma saída nem limpa, como qualquer pessoa com um
mínimo de honestidade admite – porque a fragilidade da nossa situação
financeira é igual ou pior do que era, porque permanecemos submetidos a uma tutela externa com direito de veto de
facto das políticas nacionais. Mudámos apenas de suserano: antes eram os
nossos “parceiros” europeus, amanhã serão os “mercados”. A diferença entre um
“programa cautelar” e uma “saída limpa” é a que existe entre o lume e a
frigideira. A chantagem é a mesma, apenas muda o agente. E a instabilidade é
maior.
Quando
a UE refere os “progressos impressionantes” que Portugal realizou, faz um
exercício de hipocrisia. Estamos economicamente mais pobres e socialmente mais
frágeis. Mais temerosos e mais divididos. Só pode achar que isto é um sucesso
quem tivesse este objectivo.
jvmalheiros@gmail.com
Opinião
Missão cumprida
03/05/2014 - 02:03
Quanto à reforma do Estado, ficou claro que o Governo se limitou a reduzir
o valor do trabalho.
No momento em que se aproxima a chamada “saída da troika”, ou seja,
o fim do programa de governação ditado pelas instituições que tutelaram a
obtenção por Portugal, em 2011, de um empréstimo de 78 mil milhões de euros –
Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional –,
parece não restarem dúvidas de que foi cumprida com sucesso a missão a que se
destinava a intervenção tutelada pelas três instituições internacionais.
O objectivo era claro: tentar transformar o
modelo de organização socioeconómica de Portugal, procurando desestruturar um
modelo assente numa hierarquia que privilegiava o sector público, organizado em
função da prestação de serviços pelo Estado a todos, para passar a privilegiar os interesses privados e a lógica do
lucro do mercado. E esse objectivo é concretizado através da redução do valor
do trabalho e do rendimento dos trabalhadores no activo ou reformados.
Nesse sentido, era cristalino que a diminuição na despesa pública e o
emagrecimento do Estado seriam
feitos à custa de baixar o nível de vida, o poder de compra dos trabalhadores portugueses.
Dois anos e meio e terminado o programa de actuação governativa incluso no
memorando de entendimento, o objectivo foi conseguido e o Governo assumiu esta semana que a
redução nas pensões de reforma e de sobrevivência é definitiva, ainda que menor do
que foram nestes últimos anos. Quanto aos salários dos funcionários públicos,
fica transparente também que a verba financeira total destinada a remunerações
no Estado diminuiu e não vai aumentar.
Mais uma vez, em Portugal parece
funcionar a máxima de que o provisório é definitivo. E os cortes nas pensões e
nos salários que foram anunciados como temporários são agora assumidamente para
ficar. Esta semana tornou-se oficial no Documento de Estratégia Orçamental que
os cortes sobre as pensões serão permanentes nas prestações sociais acima de
1000 euros por mês, variando gradualmente entre 2% e 3,5%.
Se o Documento de Estratégia Orçamental não traz nada de novo sobre as
intenções de cortes nos salários do Estado e nas pensões em geral, a surpresa
vem dos novos aumentos de
impostos agora anunciados. Por um lado, de impostos sobre o consumo, com uma subida
do IVA de 23% para 23,25% – o que dirão Pires de Lima e Paulo Portas
depois da propalada promessa da descida do IVA e do IRS feita pela direcção do
CDS eleita no congresso de Oliveira do Bairro?
Além da subida do IVA,
foi anunciada uma subida da taxa social única (TSU) paga pelos trabalhadores, que passa assim de 11% para 11,25%.
Depois da ameaça de disparar a TSU dos trabalhadores, que foi o rastilho para a
manifestação que a 15 de Setembro de 2012 trouxe às ruas de Portugal meio
milhão de pessoas, o Governo não desiste de aumentar a contribuição dos
trabalhadores para a Segurança Social e não toca na contribuição que é paga
pelos empregadores.
A taxação do trabalho mantém-se, aliás, na estratégia orçamental que agora
é oficializada e que serve de padrão e regra para os próximos Orçamentos do
Estado. O corte salarial dos funcionários públicos, que atinge actualmente uma
margem de variação entre 2,5% e 12% nos salários mensais a partir de 675 euros,
é reposto apenas numa parcela de 20% no vencimento de cada trabalhador.
Mas esta reposição de 20%,
explicava o PÚBLICO, só parece estar garantida para 2015, já que de futuro ela
dependerá “da capacidade de o Estado manter o valor da massa salarial na
administração pública, nomeadamente
através da diminuição de efectivos” (PÚBLICO online 01/05/2012).
Assim, há uma garantia de que um quinto dos cortes salariais dos
funcionários públicos são repostos, mas, a partir daí, a repetição deste
patamar durante mais quatro anos depende da diminuição do número de efectivos na
administração pública. Introduz assim uma lógica segundo a qual quem quer ver o
seu salário reposto dentro de cinco anos passa a desejar ardentemente que o
colega do lado seja despedido.
Explicando melhor: a massa salarial de que o Estado passa a dispor para
garantir as remunerações dos seus trabalhadores nos próximos anos é a que
estará em vigor em 2015 e os ordenados
só voltarão ao que eram antes dos cortes em função do sucesso da diminuição do
número de funcionários públicos.
Por conhecer – ou melhor por fazer – está a mais que prometida reforma
do Estado, bem como a anunciada reforma da Segurança Social. Sobre isto o
Governo e os seus documentos mantêm o silêncio. Em relação à Segurança Social, a dita “reforma” é clara:
mudam as fontes de financiamento, recaindo este num aumento da TSU dos
trabalhadores e do IVA, para além da manutenção da diminuição das pensões.
Quanto à reforma do Estado, também ficou claro que o Governo se limitou a
reduzir o valor do trabalho.
Jornalista
sexta-feira, 2 de maio de 2014
VIVA O 1º DE MAIO !
Fotos do 1º de Maio de 1974 em VRSA
Em 1974 comemorou-se o 1º de Maio em VRSA, hoje nada. Muito comércio
aberto, muita gente na praia. Hoje, 1º de Maio, reuniu-se o governo com a
Troyka. Ontem, véspera do 1º de Maio o governo PPD/CDS, avançou com mais um
pacote de impostos e a punição do provisório em definitivo. SERIA
INGENUIDADE PARA NÃO PERCEBER A PROVOCAÇÃO, INTENCIONAL NESTA DATA, E CLARA, O GOVERNO ESTÁ AO SERVIÇO DOS MERCADOS E NÃO DOS TRABALHADORES E DO POVO PORTUGUÊS,
TOMEM LÁ MAIS ESTE MERECIDO CASTIGO E AMOCHEM, QUEM MANDA SOMOS NÓS, QUE FIQUE
CLARO.
Foi o POVO que ao sair à rua por todo o país, em 1974, ajudou o MFA a consolidar a vitória, e a construir uma democracia avançada para o tempo.
Hoje, ao não saírem à rua nem comemorarem o 1º de Maio ajudam a perpetuar um governo injusto e reaccionário, a consentirem que lhes mintam e os sobrecarreguem com impostos e atirem para o desemprego, a emigração e a miséria milhões de portugueses. Quem não se mexe acaba sempre por ser atropelado. E, quando forem votar no fim do mês, não se esqueçam de votar nos mesmos de sempre e depois, quando lhes caírem em cima mais impostos ou cortes nas pensões não venham com a cantiga que não votaram neles.
Junto um relato da Helena Pato de um 1º de Maio de outros tempos e um link para verem como foi em 1974.
Seguíamos num
Volkswagen – eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo, com quem já casara, tinha
recebido do chefe de redacção do República a incumbência de fazer a reportagem.
Para a censura cortar, inevitavelmente, de alto a baixo, é
claro. Ao seu lado, um amigo, um camarada nosso, que estava ali por ser um dos
organizadores. No banco de trás seguia eu, impaciente e receosa.
Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era assunto subversivo cuja referência pública, escrita ou em voz alta, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado, à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores de Lisboa.
Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. 1.º de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. Depois foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.
O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a óbvia normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização tantos meses a fio? «Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!» Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo, no crescendo das greves, iria dar, assim, em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal, onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!» Amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam defrontado por mais do que uma vez durante esse mesmo ano? 1500 jovens presos num só dia, em Março, na Cidade Universitária, e agora ninguém se mexia?
«Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada ciente de uma experiência que eu admirava.
De uma coisa eu tinha a certeza: a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, repetitivamente, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias.
Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força.» Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios – caminhavam imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…»
Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançar pela Rua Augusta, vinda do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir a força. Quando se cruzou connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime.
Percorríamos as ruas lentamente, circulando, da Praça do Comércio até ao Rossio; aí dávamos a volta e regressávamos à Rua do Ouro, num movimento cada vez mais desesperançado. O silêncio vindo de fora tinha-nos contagiado.
Às 6 em ponto, o espanto:
– Olhem, olhem! Extraordinário! – exclamei.
O milagre nesse Maio de luta contra o fascismo. Em poucos segundos, a Baixa ficara repleta de gente. Pareciam nascidos do chão. Surgiam de todos os cantos e do interior das lojas. Bem-postos, sim, bem-postos, de chapéu, eles, com malinha no braço ou na mão, elas. Vinham, em passo acelerado, das ruas transversais – a Rua da Conceição, a da Vitória, a do Crucifixo, abarrotavam. Santa Justa em clamor. Muitos corriam em bandos, vindos dos lados do Tejo, outros desciam o Chiado aos magotes ou afluíam dos Restauradores. A Rua da Madalena, a dos Fanqueiros e todas as ruas que desembocavam na Praça da Figueira encheram-se, num ápice, de gente que se dirigia para o Rossio. 6 da tarde. Nessa altura, a multidão bradava uma palavra de ordem qualquer, não sei o quê, não me lembro.
– Pára, Alfredo, vou sair! – gritei, na Rua da Prata, a saltar do carro ainda em andamento, sem levar carteira, nada, a não ser uma algibeira atulhada de pimenta.
Que me lembre, não havia carros de água nem bombas lacrimogéneas. A polícia era treinada para obedecer às ordens superiores e, desta vez, as ordens superiores resumiam-se, por certo, a duas frases:
«Dêem cabo deles! Acabem-lhes com a raça!» Os polícias invadiram o Rossio: pareciam drogados, saindo como animais das camionetas, bruscamente estacionadas, empunhando cassetetes, com olhares de ódio, espumando de fúria. Não me esqueço de que vi um deles junto de mim, fardado, com pistola. Largaram em corrida, mais aguerridos do que nunca, piores do que em concentrações anteriores. Juntei-me à multidão. De repente, a repressão abateu-se com tal violência que nos levou a reagir imediatamente com um só grito: «A-ssa--ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» (E eram.) Caíram sobre todos os que agarraram, malhando a torto e a direito. Missão cumprida: homens novos e velhos caídos no chão, alguns cheios de sangue. Prisões aqui e ali. A pancada brutal assustava.
Na expressão vincada na face de muitos populares via-se raiva, mas também medo: gente lívida a escapar-se para dentro do Café Nicola e do Café Gelo. Constou que a Pastelaria Suíça tinha fechado as portas de imediato para que a polícia não lhe destruísse o interior, mas também para não acolher ninguém. Houve quem, a custo, conseguisse fugir para as margens da refrega e ficasse a descansar. Gente que por momentos se juntou àqueles lisboetas que desde o princípio se mantinham encostados às montras, nas esquinas do Rossio e perto do Arco Bandeira – uma Lisboa do reviralho, do fado e da ginjinha, solidária, mas, até Abril, temerosa.
Eu, ali parada, ao lado do Teatro D. Maria, quase em pânico, com as pernas a tremer, mas revoltada com tudo o que via – numa ira crescente –, procurava ganhar terreno e coragem para atirar com a pimenta aos cavalos que a GNR lançava sobre as pessoas. Assustei-me com eles a relinchar, patas ao alto, avançando sobre nós, enquanto clamávamos: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» A 2 metros de mim, em poucos segundos, uns quantos animais tombaram. Estavam agora de joelhos, os guardas a procurarem levantá-los, e nós: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!».
Começou o tiroteio. A multidão resistia, sem conseguir perceber donde vinham os tiros.
Dois amigos puxaram-me e quase me arrastaram em direcção à estação de comboios. Depois subimos as Escadinhas do Duque e corremos rua acima, numa subida cansada, violenta e dramática. Os tiros sucediam-se nas nossas costas: aquele som ainda nos perseguia e nós, ofegantes, já íamos junto ao Quartel do Carmo. Lembro-me de, lá em cima, ter um ataque de choro. Raiva ou medo? Nem sei.
«A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» é uma forte memória que guardo do eco da resistência no coração da cidade.
– Há montes de feridos, prenderam muita gente… – gritava-me uma amiga ali a dois passos.
– Parece que mataram um gajo, um operário, um rapaz dos nossos… – disse eu, em pranto.
Ao princípio da noite sentei-me na Cervejaria Trindade com o Alfredo, uns amigos e a certeza de que, a partir dali, a efeméride que, de futuro, comemoraríamos com verdadeira emoção não voltaria a ser o 5 de Outubro. Aquele tinha sido o primeiro «1.º de Maio» de luta para muitos milhares de pessoas em todo o país, um passo importante no combate político contra a ditadura.
Meses depois, o Alfredo foi para o exílio, fugindo à prisão que o ameaçava. Chegava brutal a vaga de repressão da PIDE sobre os principais organizadores da sequência de greves e lutas desse histórico ano – e ele havia sido um deles.
Em 1974, centenas de milhares de portugueses desfilaram no dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador. Comemorava-se a liberdade: era dia de festa, mas poucos saberiam a história dos anteriores.
Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era assunto subversivo cuja referência pública, escrita ou em voz alta, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado, à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores de Lisboa.
Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. 1.º de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. Depois foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.
O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a óbvia normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização tantos meses a fio? «Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!» Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo, no crescendo das greves, iria dar, assim, em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal, onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!» Amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam defrontado por mais do que uma vez durante esse mesmo ano? 1500 jovens presos num só dia, em Março, na Cidade Universitária, e agora ninguém se mexia?
«Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada ciente de uma experiência que eu admirava.
De uma coisa eu tinha a certeza: a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, repetitivamente, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias.
Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força.» Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios – caminhavam imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…»
Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançar pela Rua Augusta, vinda do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir a força. Quando se cruzou connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime.
Percorríamos as ruas lentamente, circulando, da Praça do Comércio até ao Rossio; aí dávamos a volta e regressávamos à Rua do Ouro, num movimento cada vez mais desesperançado. O silêncio vindo de fora tinha-nos contagiado.
Às 6 em ponto, o espanto:
– Olhem, olhem! Extraordinário! – exclamei.
O milagre nesse Maio de luta contra o fascismo. Em poucos segundos, a Baixa ficara repleta de gente. Pareciam nascidos do chão. Surgiam de todos os cantos e do interior das lojas. Bem-postos, sim, bem-postos, de chapéu, eles, com malinha no braço ou na mão, elas. Vinham, em passo acelerado, das ruas transversais – a Rua da Conceição, a da Vitória, a do Crucifixo, abarrotavam. Santa Justa em clamor. Muitos corriam em bandos, vindos dos lados do Tejo, outros desciam o Chiado aos magotes ou afluíam dos Restauradores. A Rua da Madalena, a dos Fanqueiros e todas as ruas que desembocavam na Praça da Figueira encheram-se, num ápice, de gente que se dirigia para o Rossio. 6 da tarde. Nessa altura, a multidão bradava uma palavra de ordem qualquer, não sei o quê, não me lembro.
– Pára, Alfredo, vou sair! – gritei, na Rua da Prata, a saltar do carro ainda em andamento, sem levar carteira, nada, a não ser uma algibeira atulhada de pimenta.
Que me lembre, não havia carros de água nem bombas lacrimogéneas. A polícia era treinada para obedecer às ordens superiores e, desta vez, as ordens superiores resumiam-se, por certo, a duas frases:
«Dêem cabo deles! Acabem-lhes com a raça!» Os polícias invadiram o Rossio: pareciam drogados, saindo como animais das camionetas, bruscamente estacionadas, empunhando cassetetes, com olhares de ódio, espumando de fúria. Não me esqueço de que vi um deles junto de mim, fardado, com pistola. Largaram em corrida, mais aguerridos do que nunca, piores do que em concentrações anteriores. Juntei-me à multidão. De repente, a repressão abateu-se com tal violência que nos levou a reagir imediatamente com um só grito: «A-ssa--ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» (E eram.) Caíram sobre todos os que agarraram, malhando a torto e a direito. Missão cumprida: homens novos e velhos caídos no chão, alguns cheios de sangue. Prisões aqui e ali. A pancada brutal assustava.
Na expressão vincada na face de muitos populares via-se raiva, mas também medo: gente lívida a escapar-se para dentro do Café Nicola e do Café Gelo. Constou que a Pastelaria Suíça tinha fechado as portas de imediato para que a polícia não lhe destruísse o interior, mas também para não acolher ninguém. Houve quem, a custo, conseguisse fugir para as margens da refrega e ficasse a descansar. Gente que por momentos se juntou àqueles lisboetas que desde o princípio se mantinham encostados às montras, nas esquinas do Rossio e perto do Arco Bandeira – uma Lisboa do reviralho, do fado e da ginjinha, solidária, mas, até Abril, temerosa.
Eu, ali parada, ao lado do Teatro D. Maria, quase em pânico, com as pernas a tremer, mas revoltada com tudo o que via – numa ira crescente –, procurava ganhar terreno e coragem para atirar com a pimenta aos cavalos que a GNR lançava sobre as pessoas. Assustei-me com eles a relinchar, patas ao alto, avançando sobre nós, enquanto clamávamos: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» A 2 metros de mim, em poucos segundos, uns quantos animais tombaram. Estavam agora de joelhos, os guardas a procurarem levantá-los, e nós: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!».
Começou o tiroteio. A multidão resistia, sem conseguir perceber donde vinham os tiros.
Dois amigos puxaram-me e quase me arrastaram em direcção à estação de comboios. Depois subimos as Escadinhas do Duque e corremos rua acima, numa subida cansada, violenta e dramática. Os tiros sucediam-se nas nossas costas: aquele som ainda nos perseguia e nós, ofegantes, já íamos junto ao Quartel do Carmo. Lembro-me de, lá em cima, ter um ataque de choro. Raiva ou medo? Nem sei.
«A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» é uma forte memória que guardo do eco da resistência no coração da cidade.
– Há montes de feridos, prenderam muita gente… – gritava-me uma amiga ali a dois passos.
– Parece que mataram um gajo, um operário, um rapaz dos nossos… – disse eu, em pranto.
Ao princípio da noite sentei-me na Cervejaria Trindade com o Alfredo, uns amigos e a certeza de que, a partir dali, a efeméride que, de futuro, comemoraríamos com verdadeira emoção não voltaria a ser o 5 de Outubro. Aquele tinha sido o primeiro «1.º de Maio» de luta para muitos milhares de pessoas em todo o país, um passo importante no combate político contra a ditadura.
Meses depois, o Alfredo foi para o exílio, fugindo à prisão que o ameaçava. Chegava brutal a vaga de repressão da PIDE sobre os principais organizadores da sequência de greves e lutas desse histórico ano – e ele havia sido um deles.
Em 1974, centenas de milhares de portugueses desfilaram no dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador. Comemorava-se a liberdade: era dia de festa, mas poucos saberiam a história dos anteriores.
https://www.youtube.com/watch?v=cIN37JB6JMw
sexta-feira, 25 de abril de 2014
VIVA O 25 DE ABRIL!
http://www.youtube.com/watch?v=rE_nw8VGVYE
Hoje, aos primeiros minutos de 25 de Abril de 2016, saúdo todos os amigos que têm acompanhado este blogue, e quero recordar todos aqueles e aquelas que dedicaram as suas vidas a combater a opressão e a injustiça, pois estas continuam e não acabaram com a Liberdade.
Continuar com persistência, com coragem, a defender a Democracia, que é uma flor frágil e murcha depressa se nos distraímos e não a regamos com firmeza democrática. Os inimigos da democracia não desarmam, utilizam todos os meios, demagogia, populismo, mentiras e truques para a ir enfraquecendo, minando, para que se torne uma fachada sem vida interior, ao serviço dos interesses financeiros especulativos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










