sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015




*Este domingo, 15 de Fevereiro, em Faro, o povo grego vai exigir que os seus
direitos de liberdade, democracia, justiça, igualdade e dignidade - valores
incondicionais de uma Europa civilizada - sejam respeitados.*
  *Faro junta-se ao movimento internacional de apoio.*
*Será um primeiro momento de solidariedade numa luta crucial que diz
respeito a tod@s A luta do povo grego é a nossa luta. *

  *APARECE A PARTIR DAS 15H NO JARDIM MANUEL BÍVAR E FAZ OUVIR A TUA VOZ!*

   *Divulga esta concentração


Por concordar com o essencial deste artigo o divulgo.

Para mudar as políticas é preciso mudar a política também

Opinião

Para mudar as políticas é preciso mudar a política também

Por André Barata

11/02/2015

Estas serão eleições primárias duas vezes abertas – abertas para quem elege e abertas para quem se propõe ser eleito.

Somos um país de múltiplas exclusões e de profundas desigualdades. Quer se trate da distribuição de rendimentos, do acesso às oportunidades, à Justiça, ao próprio espaço público, há sempre um traço distintivo que nos caracteriza: Portugal não é para todos.

Também politicamente, apesar da democracia, Portugal não é para todos, faltando à maioria dos cidadãos oportunidades e poderes de participação pública. Um país assim, tão coarctado da grande maioria da sua sociedade, não chega nunca a ser toda a sua força: económica, social e politicamente. 

No final de Janeiro foi lançada, pela primeira vez no nosso país, uma candidatura cidadã às eleições legislativas, designada Tempo de Avançar. Uma candidatura que não é de um partido ou de uma coligação, com mais ou menos independentes na lapela, mas sim uma candidatura inclusiva, em que alguns milhares de cidadãos, associações políticas (Fórum Manifesto, Renovação Comunista, Movimento Intervenção e Cidadania) e um partido (o Livre) avançam juntos, de igual para igual, interdependentes na sua independência. A lei eleitoral prescreve que apenas partidos políticos podem apresentar-se a eleições legislativas, mas nada impede que um partido disponibilize a sua inscrição no Tribunal Constitucional a um movimento político de mobilização cidadã com o objetivo urgente de mudar a governação.

Noutros países – Grécia e Espanha em especial – este objetivo já começa cumprir-se. Mas em Portugal o objetivo de mudar a governação e as políticas de austeridade exige uma mudança na maneira de fazer política. Não mais a política como o exclusivo de alguns, mas a política como uma prática de inclusão, de chamada e capacitação decisória dos cidadãos. Em Portugal, aquilo que verdadeiramente estrangula a sociedade do ponto de vista da sua capacidade política é, acima de tudo, o facto de a política permanecer apoderada por uma minoria e dedicada a uma minoria. 

Para romper este bloqueio, a candidatura cidadã Tempo de Avançar iniciará um processo de eleições primárias para a escolha de candidatos às eleições legislativas deste ano.

Serão não apenas eleições primárias, mas primárias abertas: em que todos os cidadãos que se identificam com os propósitos da candidatura comporão o universo eleitoral. E em que qualquer cidadão que manifeste a sua concordância com os príncípios e linhas programáticas do movimento pode ser candidato a integrar as listas do Tempo de Avançar. 

Estas serão eleições primárias duas vezes abertas – abertas para quem elege e abertas para quem se propõe ser eleito. Esta é a chamada de cidadãos que pode contribuir, com a sua inclusividade, para devolver politicamente o país a todos nós. E é a capacitação de cidadãos que pode contribuir para devolver credibilidade à participação política. Nós, cidadãos, acreditamos nos processos que acreditam em nós. Confiamos nos processos que confiam em nós.

Serão eleições primárias em que os subscritores de cada círculo eleitoral determinarão quais os candidatos do movimento por esse círculo eleitoral. Corta-se assim de raiz o pára-quedismo sem escrutínio democrático de candidatos em distritos que nada lhes dizem. Conseguem estas eleições, pois, o que os círculos uninominais conseguiriam, mas sem os vícios que a criação desses círculos traria à vida política portuguesa, caso viessem a ser implementados.

E serão eleições primárias pelas quais terão de passar quaisquer candidatos da candidatura cidadã Tempo de Avançar, por notórios ou notáveis que sejam. Muito diferentes são as eleições primárias que a direcção do PS decidiu autorizar às suas federações regionais para escolherem os respectivos candidatos às legislativas. Aí, o que teremos é que cada federação regional optará por fazer, ou não, primárias, podendo muito bem acontecer que a grande maioria das federações opte por não as fazer. O exemplo, aliás, deveria vir de cima. Os candidatos indicados pela direcção nacional – e que tendem a coincidir com os elegíveis – é que não deveriam poder ser admitidos sem antes se submeterem a uma eleição primária. Se o mais evidente mérito político das primárias está em não deixar ao critério de uma direcção o exclusivo da escolha dos cidadãos que integrarão listas candidatas à Assembleia da República, como sucede, por regra, nos partidos, então é claro que o PS continua a não fugir à regra. Não basta autorizar primárias, é preciso fazê-las.

Portugal precisa de outras políticas e para as alcançar precisa de outra maneira de fazer política, que faça da inclusão, da chamada e da capacitação de cidadãos a chave para uma democracia mais forte, mas também a imagem do país que queremos – um país que é para todos, um país nosso, de todos para todos.

Promotor da candidatura cidadã Tempo de Avançar, membro do grupo de contacto do Livre
 

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

FILOSOFANDO SOBRE TELHADOS

 
 

TELHADOS DE VIDRO

 

Frequentemente nos deparamos com esta expressão em política que, traduzindo, significa que não se pode criticar ou denunciar uma irregularidade ou qualquer outra violação da lei praticada por um partido ou pessoa politicamente responsável por, em tempo anterior, ter o nosso partido ou algum dos seus membros praticado acto ou acção semelhante.

Esta forma de pensar e ver o problema é, em si própria, uma perversão e um veneno da democracia.

Em lugar de se combater o que está errado pactua-se com ele, fecha-se os olhos a práticas condenáveis, passa a ser encarado como normal o que deveria ser excepção, permite-se o crime demitindo-nos de defender a transparência democrática dos órgãos do poder.

Com tal mentalidade na nossa casa partidária se alguém praticou um crime pactuamos com ele, em lugar de o combater esconde-se o acto e, mais grave, continua-se a promover e a proteger o infractor porque é “nosso”.

Desiste-se de sermos um exemplo democrático quer para os nossos militantes quer para os outros partidos e a sociedade. Há organizações partidárias que aos olhos da generalidade das pessoas mais parecem um “gang”, rodeado de gente paga com favores imerecidos para garantir clientela.

Não admira que partidos minados por dentro como estão prometam tudo e o seu contrário para se manterem no poder, sem intenção de respeitarem os compromissos que proclamam aos eleitores, só se recordando da existência dos seus militantes  para uso como tropa de choque nos actos eleitorais.

Por toda a Europa assistimos a uma vaga de contestação aos partidos tradicionais, ao nascimento de novas organizações políticas que exigem coerência entre o que se diz e o que se faz. Abrem-se janelas que provocam correntes de ar que afastam maus cheiros políticos, arejam o ambiente e criam esperança.

Oxalá consigam implantar-se.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A CULTURA AJUDA A ENTENDER MELHOR AS COISAS


A realidade nunca é a preto e branco, é sempre mais complexa, e para a entender são necessários vários focos para a iluminar. Os dois artigos que divulgamos, de Miguel Real, - um autor que tem vários livros sobre nós, os portugueses e a sua história, que tenho lido com proveito e prazer - , são, creio, elucidativos. Boa leitura, embora extensa vale a pena.


Identidade histórica em mudança (I)

Por Miguel Real

29/01/2015 -

A modernização europeia de Portugal entre 1980 e 2000 provocou uma profundíssima alteração nas suas instituições fundamentais.

Sociologicamente, a modernização europeia de Portugal entre 1980 e 2000 provocou uma profundíssima alteração nas suas instituições fundamentais:

1. – operou-se uma profundíssima alteração nos sectores produtivos da economia, com a terciarização desta a suplantar os sectores primário e secundário. A imagem representativa de Portugal abandonou a sua faceta rural e bucólica, carregada de pobreza, para se evidenciar como a de um país moderno, informatizado, europeu, turístico, de economia totalmente aberta ao exterior, acolhedora de imigrantes;

2. – operou-se uma profundíssima alteração na estrutura política do Estado com a passagem de um sistema hierárquico vertical e corporativista para um sistema de representação parlamentar democrática ao modo da Europa Ocidental;

3.  – operou-se uma profundíssima alteração do lugar geográfico e estratégico internacional de Portugal, deslocando-se o ângulo de actuação e reacção do Atlântico (o Império) para a Europa; resta, dos tempos passados, ligando o passado ao presente e a história à identidade nacional, os vagos traços de uma incerta Lusofonia;

4. – operou-se uma profundíssima alteração dos vínculos sociais institucionais tradicionais da cultura e dos hábitos dos portugueses (como a antiga ligação umbilical à Igreja e o predomínio de uma família clássica), propiciada pela aceleradíssima laicização e até profanização dos costumes obviada pela avalanche de novos padrões comportamentais individualistas, relativistas e niilistas advindos da Europa e dos Estados Unidos da América;

5. – operou-se uma profundíssima alteração ética na hierarquia social com desvalimento das antigas profissões nobres, como a do professor, do político, do militar, do sacerdote e do intelectual, substituídas pelo técnico especialista em economia e em gestão, pelo técnico em aplicações de ciência experimental e pelo comentador televisivo, ora considerados de superior valia e utilidade.

De certo modo, estas cinco alterações profundas no tecido social e na mentalidade nacional constituíram-se como realizações factuais da modernização europeia de Portugal e, com elas, o país actualizou-se historicamente e europeizou-se socialmente.

Assim, na segunda década do século XXI, o retrato histórico de Portugal figura já o resultado do violentíssimo choque social e cultural entre duas forças motrizes de natureza social, bem como o efeito deste choque na consciência do cidadão português:

1. – Tempo longo – A primeira força social imparável que tem regido a sociedade portuguesa como um todo consiste na esforçada modernização europeia de Portugal desde 1980 (assinatura do tratado de pré-adesão de Portugal à Comunidade Europeia) até ao final do século, princípio do XXI, ambição colectiva desenhada desde o consulado do Marquês de Pombal e só realizada plenamente na actualidade. Esta primeira força, mais do que um movimento social, constituiu, verdadeiramente, uma autêntica vaga histórica que atravessou o Constitucionalismo Liberal, a Regeneração e a I República, foi bloqueada ao longo do Estado Novo por uma visão política rural, imperial e católica da sociedade, e apenas integralmente executada e efectivada de um modo global após 1980.

O movimento social de modernização europeia de Portugal, como cumprimento histórico, correspondeu à inspiração dos três “Dês” postulados pelo Movimento das Forças Armadas, “Descolonizar, Democratizar e Desenvolver”, assumindo um tempo social novo, destituído de Império, sem prevalência da religião sobre os comportamentos individuais e sociais, sem regime de condicionamento industrial, desenvolvendo uma intensa terciarização dos sectores produtivos e uma esperançosa legislação igualitarista, fundada na justiça social, e permitiu, por um lado, a criação e a consolidação de uma fortíssima classe média e, por outro, um tempo de inovação cultural e científico, ambos sem paralelo no Portugal do século XX. Constituiu o tempo de ouro ou o tempo luminoso (cerca de um quarto de século) de justiça social, de coesão e igualdade sociais, de fortíssima mobilidade social (filhos de operários e pequenos agricultores tornam-se professores, médicos, advogados, economistas), do impetuoso arranque de uma nova visão cultural e estética de Portugal, de uma intensíssima actualização de todos os sectores sociais, económicos, académicos, culturais, científicos, desportivos e religiosos. Desde a Regeneração de Fontes Pereira de Melo que não se viveu tão bem nem tão “modernamente” ou “europeiamente” em Portugal como no período entre 1980 e o final do século. De certo modo, em quase todos os indicadores de qualidade de vida, atingiram-se desempenhos que nos colocavam, no princípio do século XXI, numa posição mediana nas estatísticas europeias, tendo Portugal partido em 1974, para a quase totalidade delas, de um lugar altamente subalterno, mesmo terceiro-mundista.

2. – Tempo conjuntural – A segunda força social opõe-se à primeira e deriva directamente, não da sociedade civil e das aspirações culturais e históricas de tempo longo, mas da recente administração do Estado, evidenciando uma regulação social que tem apenas em conta – e apenas – a saúde orçamental das finanças públicas e as aspirações tecnocráticas por que a elite político-administrativa, quebrando a mobilidade social e restaurando o tradicional estado de coisas hierárquico em Portugal, fortemente dividido entre “senhores” e subordinados, intenta reduzir a maioria da população à luz de uma visão burocrata, monetarista e tecnocrata da Europa. Este segundo movimento social inicia-se com o discurso da “tanga” de Durão Barroso (2002), opõe-se frontalmente às dinâmicas históricas criadas pelo primeiro movimento e prolonga-se até aos dias de hoje, deixando, porém e de novo, o país de “tanga”, agora não o Estado, mas a quase totalidade da população e das empresas de pequena dimensão (a maioria). O segundo movimento social, ao contrário do primeiro, que perfazia parte integrante do processo histórico europeu, há muito realizado na maior parte dos países seus constituintes e de certo modo constitutivo de um “desígnio” nacional (apenas o Partido Comunista votou contra a adesão de Portugal à Comunidade Europeia), é artificial, criado por problemas financeiros do Estado (crise da dívida soberana) e foi enfrentado, em Portugal, por uma fanática política de austeridade (dizemos “fanática” porque ultrapassou as metas de austeridade impostas pelo memorando de entendimento, subordinando todas as actividades e sectores do Estado e da sociedade a uma obstinação encarniçada de poupança orçamental e de brutal aumento do impostos) que empobreceu a maioria da população, privilegiou o sector financeiro e, paradoxo dos paradoxos, não concedeu um excedente de saúde contabilística ao Estado.

De um modo muito claro, tão explícito como nunca houvera em Portugal, propõe-se a adesão a um neoliberalismo global que deposita o país nas mãos de um mercado financeiro (quase) totalmente desregulado e de uma economia concorrencial de cunho selvagem (a tal que mata, segundo o Papa Francisco).

 
Identidade histórica em mudança (II)
Por Miguel Real
30/01/2015 -
A modernização europeia de Portugal entre 1980 e 2000 provocou uma profundíssima alteração nas suas instituições fundamentais.
2. – Actualidade – Com efeito, a imagem que o português possuía da Europa alterou-se radicalmente e consolidou-se negativamente entre 2008 e 2015. Se a antiga imagem da Europa se identificava, do ponto de vista histórico e civilizacional, com uma sociedade fundada na justiça social, no progresso económico, na qualidade de vida e no desenvolvimento científico e tecnológico, hoje, em função da consolidação do euro como moeda comunitária e da imposição alemã da regra de ouro das finanças públicas (máximo de 3% do défice), ela identifica-se com a existência de dois blocos de países, o primeiro capitaneado inflexivelmente pela Alemanha, constituído pelos Estados mais ricos da Europa Central e do Norte, e o segundo, para além da Irlanda, por um agrupamento de países empobrecidos do Sul (Grécia, Portugal, Espanha, Chipre, de certo modo a Itália), em perda acelerada de soberania, que, para fazer face às despesas correntes do Estado, se tornaram “eternamente” devedores dos primeiros através de uma troika de instituições financeiras (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). A nova imagem da Europa comunitária identifica-se, na mente dos portugueses, com acções penalizadoras, mesmo mortificantes, geradoras de desemprego de longa duração e de emigração forçada, desigualdade entre países e menor justiça social para as populações mais desfavorecidas. Existe, assim, uma diferença abissal entre o que Portugal esperava da Europa em 1980 e o que hoje espera, gerando sentimentos contraditórios – no primeiro momento, um optimismo voluntarioso; no segundo, um pessimismo desencorajante. Tendo a actual elite política e administrativa como principal motor de acção, assistiu-se em Portugal, como doutrina dominante, imposta pelas necessidades de financiamento do Estado, entre 2008 e 2014, a um inaudito e escandaloso empobrecimento da população com expressa destruição da recente e ainda economicamente insegura classe média. Neste sentido, o movimento geral social que enquadra a actualidade directa dos anos mais recentes reside, justamente, no choque social frontal havido entre as duas forças ou os dois movimentos sociais anteriores, gerando um país despido de identidade histórica própria, um país sonâmbulo, perplexo e petrificado, permanentemente em estado de choque.
A diferença radical entre a modernização europeia alcançada entre 1980 e 2000 e as políticas públicas desenvolvidas entre o princípio do século e 2014 pode ser sintetizada, de uma maneira simbólica mas muito expressiva, pela diferença de posição de Portugal no Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela Organização das Nações Unidas, que estabelece a qualidade de vida dos povos (educação, saúde, esperança de vida, riqueza…) entre 2002 e 2012. Naqueles anos, Portugal encontrava-se numa honrosa 23.ª posição, situado entre os países mais desenvolvidos; dez anos depois, encontra-se no 43.º lugar. A primeira posição reflecte os resultados do movimento de modernização europeia de Portugal; a segunda reflecte os resultados do segundo movimento social, de retracção no avanço de uma sociedade tendencialmente comunitária (a lei expressa o bem comum e não os interesses do Estado) e de enorme mobilidade social. Com efeito, em menos de 15 anos do século XXI, Portugal perdeu 20 lugares, o que significa que foi ultrapassado por outros tantos países.
A destruição dos resultados sociais atingidos pela modernização europeia de Portugal que os governos de Portugal empreenderam este século, retirando a esperança de um futuro estável para as famílias portuguesas e uma visão optimista de futuro para a maioria da juventude não pertencente à elite política e empresarial, conduziu à introdução maciça e acelerada de novos valores (emergidos, sem dúvida, através da intensa promoção do consumismo e do individualismo gerados pelo consulado de Cavaco Silva à frente do Governo) e à perda de referentes éticos e culturais do passado, como o valor do trabalho, o valor da amizade, o valor da poupança, o valor da honestidade, o valor da espiritualidade e da transcendência, o valor do saber desinteressado, o valor da memória histórica e cultural, substituídos por valores hedonistas (o prazer e a realização individuais acima de tudo, que é o mesmo que dizer, em geral, o dinheiro acima de tudo), valores técnicos de eficiência e de competição (de concorrência, no sentido em que invariavelmente ganha quem nasceu em berço de ouro e possui uma formação superior e conhecimentos pessoais no empresariado e nos partidos instalados, os restantes forçados a contentarem-se com empregos rotineiros e vencimentos débeis, sem esperança de que as suas qualidades sejam reconhecidas e possam atingir um dia um estatuto financeiro superior), niilistas (isto é, uma multiplicidade infinita de valores, nenhum dos quais de superior valia ao do dinheiro e do prazer, ambos medidos sobretudo pela ostentação de bens) e individualistas (a sociedade não se constitui como uma comunidade coesa solidária, mas como um agregado ou uma soma de valor nulo de indivíduos e todas as políticas são firmadas em nome da primazia do indivíduo e dos seus interesses e desejos).
Parado no meio do caminho da sua realização europeia, é forçoso que Portugal retome a sua caminhada histórica. Fazemos votos para que 2015 seja o ano desta retomada.
Escritor
 
 
 

 

domingo, 11 de janeiro de 2015

NOTÍCIAS À ESQUERDA TEMPO DE AVANÇAR




Estive, marquei presença, sou um dos subscritores iniciais deste movimento. A situação que o país atravessa exige de todos nós e em particular dos mais conscientes que saíamos do nosso conforto, que descruzemos os braços e que dêmos a nossa contribuição para travar este descalabro propositado e que dêmos o nosso esforço para tentar criar uma alternativa democrática que inverta o caminho de destruição da democracia e do que resta de Abril.

Sala cheia, muitas intervenções, demonstrativas do descontentamento sentido, mas também muita determinação de continuar, de ajudar a construir um novo movimento, aberto, sem espírito partidário fechado, feito democraticamente com a participação dos que o  quiserem fazer, a partir de baixo. Queremos que ganhe asas e força representativa para que essa força política e também eleitoral sirva para desbloquear à esquerda a possibilidade de entendimento sem o qual tudo permanecerá na mesma, a velha alternância que mata e enterra a necessária alternativa democrática na sociedade e na política social e económica.  

Em  www.tempodeavancar.net  a informação sobre este movimento em construção onde todos podem participar na elaboração da linha programática, subscreverem a Candidatura Cidadã Tempo de Avançar, participar nas escolhas dos seus representantes. Dia 31 de Janeiro, em Lisboa, será a confirmação de Tempo de Avançar.  

 

Tempo de arriscar

Por Isabel do Carmo

09/01/2015

Não podemos deixar correr este filme como simples observadores.

A realidade da crise exige novas formas de intervenção. O apelo a um polo à esquerda vem desde o Manifesto 3D (Dignidade, Democracia e Desenvolvimento). Concretiza-se agora na articulação do movimento Manifesto/partido Livre/cidadãos independentes e concretiza-se na Plataforma de Cidadãos Tempo de Avançar.

A capacidade concêntrica da “matriosca” até podia ser uma qualidade, mas é melhor chamar-lhe um puzzle. Articulação de peças desiguais, que mantêm identidade, mas que encaixam sem sectarismo. Isso é novo, traduz uma cultura de tolerância, capacidade de ouvir e de actuar em conjunto, distante da que existia há quarenta anos. Neste período perdemos muitas das conquistas sociais, mas ganhámos como indivíduos, ao nível mental, do conhecimento, de estar com o outro. Isto transcende os círculos restritos de militantes e activistas para atingir os grandes círculos da comunidade, que se organiza em múltiplas associações, onde ninguém pergunta qual o credo ou a ideologia.

Nesta articulação sem perímetro definido, há no entanto linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas – não aceitar mais a austeridade, ou seja a pobreza, como solução para a crise que é afinal do sistema bancário. Defender em concreto o contrato social, os mecanismos reguladores e compensadores das desigualdades – ensino e saúde públicos, segurança social. Meter-se entretanto na gaveta o objectivo da igualdade de oportunidades, na diversidade. Nasce-se desigual. E a muitos isto não dá vergonha e nem sequer um sobressalto.

Dizem os especialistas que, segundo as contas, é impossível para Portugal continuar a pagar a dívida nestes moldes e manter o Estado Social. “Dívida” e “culpa” são a mesma palavra em língua alemã e também o são para os que têm a memória ancestral das dívidas à mercearia, ao padeiro, ao amigo e que são massacrados com o discurso moralista dos “sacrifícios” e do risco de bancarrota. Ora o negócio dos credores é a renda dos juros. Lutarão por ela. Todavia, a realidade não é estática. É necessário contar com o inesperado. É o que acontece com as sondagens do Syriza na Grécia e com o surgimento do Podemos em Espanha. E se a realidade da Europa do Sul, pudesse dar outra escala a este pequeno Portugal?

Olhando de helicóptero, observamos um momento impiedoso de vitória dos defensores da desigualdade, da mercantilização da vida humana, da perda de direitos adquiridos em lutas (onde já vão as oito horas de trabalho, aqui na Europa). E o trabalho foge para onde há escravatura, semi-escravatura ou trabalho não-decente para usar a terminologia da Organização Internacional do Trabalho. Parafraseando Ricardo Salgado (entrevista ao Expresso, 26.03.2011): “o sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados”. O problema não é este ou aquele fulano. De facto, o que está em questão é o sistema. No meio disto tudo a boa coisa foi a aparecimento do Papa Francisco. Para mim, que não sou católica, posso discutir certas zonas do cauteloso discurso papal, mas os católicos têm que engolir a pastilha por inteiro. Eu bem os observo em habilidosas deturpações ou omissões…

Vendo também de helicóptero, percebe-se que a automatização da produção vai produzir exércitos de desempregados. É só uma questão de tempo. Haverá então hordas de pessoas consideradas inúteis pelos donos do mundo. A ministra da Saúde da Lituânia já sugeriu a solução para alguns, uma vez que naquele país não há Serviço Nacional de Saúde: “A eutanásia pode ser uma boa escolha para os pobres, que em razão da sua pobreza não têm acesso ao serviço médico”.

Em Portugal, a população vê passar milhões à sua frente, no aquário, enquanto um quarto dela está em situação de pobreza. O ministro da Solidariedade já lançou uns milhares na miséria, com os cortes e quer estabelecer tectos, porque vê perigos morais (preguiça) em que os subsídios todos juntos de uma família de onze membros, somem 950 Euros! Muito respeitáveis são os membros não-executivos de conselhos de administração que recebem dezenas de milhares de euros por mês para irem lá uma ou duas vezes por ano. Esta é a matriz do pensamento dos que nos governam.

Perante esta situação, o Partido Socialista ou se volta para a esquerda, ou sofrerá o destino dos partidos socialistas da Grécia, da França e da Espanha.

E quanto àqueles que ficam à sua esquerda e com quem é possível e necessário que dance o tango, temos que arriscar. Parece que arriscamos o impossível. Mas a vida não pára. Alguns acusam a nova organização de “querer ir ao pote” ou de pretender uma secretaria de Estado. O pote é fraco para pessoas que têm as suas carreiras de investigação. Ana Drago e outros têm carreira académica e podiam preservar a sua “pureza” com distância. Reduzir o objectivo a uma secretaria de Estado é o mesmo do que deixar a esperança pendurada à porta, como se fosse uma segunda pele. No entanto, pode haver outra razão para que se arrisque vitórias e derrotas, rótulos e classificações. Essa razão é ética: não podemos deixar correr este filme como simples observadores.

Médica. Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA 10

 
Quase a um ano de distância das eleições 2015 à esquerda tudo mexe. Apareceu agora o "Podemos" português, radical, com posições muito parecidas com o PCP e o Bloco. Veremos o que dará tudo isto uma vez que todos afirmam querer uma política nova ou uma nova política com corte radical com o Euro, UE, não pagar a dívida, fim da austeridade etc. Querem um polo da esquerda mas tudo fazem nas afirmações produzidas para que tal não se venha a verificar. Divulgo um artigo de Vítor Malheiros que me parece mais sensato e mais viável no caminho proposto para se conseguir
alterações políticas, económicas e sociais que sejam alternativa à situação actual.
 
 
A esquerda não pode perder por falta de comparência
16/12/2014 -
A presença do PS é uma condição necessária para um governo de esquerda. Não por razões ideológicas, mas por razões aritméticas.
Tenho a certeza de que uma maioria significativa dos portugueses deseja que, das próximas eleições legislativas, saia um novo governo que ponha em prática uma política que recuse o modelo austeritário, que defenda os interesses de Portugal na União Europeia e não os interesses dos nossos credores, que seja capaz de encontrar aliados na UE para combater as políticas europeias que põem em causa a democracia, a independência e o desenvolvimento nacional (a começar pelo Tratado Orçamental e pela TTIP-Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), que combata de forma vigorosa as desigualdades e a pobreza, que promova uma educação e uma saúde de acesso universal, que defenda a ciência e a cultura, que combata os poderes ilegítimos e a corrupção, que promova o emprego e a dignidade do trabalho, que garanta um desenvolvimento social e ambientalmente sustentável, que permita enfim a todos os cidadãos uma vida decente numa sociedade democrática.
Ou seja, uma política que seja diametralmente oposta à política lesa-pátria do actual Governo, de favorecimento do capital financeiro, de submissão generalizada aos poderes estrangeiros, de submissão à vontade dos credores, de empobrecimento generalizado da população, de apropriação e delapidação do património do Estado, de destruição dos serviços públicos, de desprezo pela independência nacional, pela democracia e pelas suas próprias promessas eleitorais.
A política que penso que a maioria do povo português deseja é uma política de esquerda, feita em nome de todos os portugueses para servir todos os portugueses e não uma política desenhada para servir grupos de oligarcas, na esperança de vir um dia a integrar as suas fileiras, como aquela que hoje, para nossa tristeza e sua vergonha, os nossos governantes levam a cabo.
Quando se faz um retrato deste tipo, daquilo que seria uma política desejável, é frequente que apareça alguém que nos diz: “Mas isso não é característico de uma política de esquerda. Eu sou de direita e também quero tudo isso!” E, de facto, não é importante o que lhe chamemos. No entanto, o facto é que uma política de combate activo às desigualdades, de erradicação da pobreza, de universalidade de acesso à Saúde e à Educação sem entraves de classe social ou económica, de defesa dos serviços públicos, de combate aos privilégios, de defesa do trabalho e de combate ao poder ilegítimo do capital financeiro é uma política que possui as características de uma política de esquerda.
A grande questão é: com quem se pode contar para pôr em prática essa política?
Em Portugal, os movimentos que têm surgido tendo como ideia central a convergência da esquerda para a construção de um governo de esquerda – em contraponto a uma esquerda instalada no protesto – têm sido acusados de pretender “aproximar-se” do PS apenas para conseguir aceder ao poder. A acusação é por vezes apenas difamatória, outras vezes será uma crítica política séria. A questão é que o PS, a posição do PS, as políticas que o PS irá defender e as que quererá pôr em prática se chegar ao governo são uma questão central para todos nós e, em particular, para todos os que têm urgência de ver uma governação à esquerda. É evidente, e sabemo-lo todos, que a presença do PS no governo está longe de ser uma condição suficiente para uma política de esquerda. Ainda que tenha tomado posições importantes na defesa do Estado social, o PS tem governado à direita e, por vezes, escandalosamente à direita. Mas a presença do PS é uma condição necessária para um governo de esquerda. Não por razões ideológicas, mas por razões aritméticas. Não para fazer do governo um governo de esquerda, mas para fazer da esquerda uma esquerda no governo.
Não se trata de aderir ao PS para o “mudar por dentro”, como tantos no passado anunciaram querer fazer sem êxito (curiosamente, em geral para saírem pela direita do PS), mas de criar um lastro à sua esquerda que produza não só políticas de esquerda viáveis, mas passíveis de recolher o apoio parlamentar necessário. Como partido ideologicamente híbrido que é, o PS vive ele próprio sob a assombração das maldições da direita: a inevitabilidade da austeridade, a imutabilidade das políticas europeias, a invencibilidade do capital financeiro, a impossibilidade de reformar de forma radical a sociedade e a política. E uma das razões que apresenta para o seu “there is (almost) no alternative” é o seu receio de que não exista apoio social e político suficiente para ser algo diferente. É essa dúvida que, quer no plano do apoio social, quer no plano da construção programática, é preciso afastar. É possível uma política de esquerda viável, realista, justa e com amplo apoio social. É este o desafio ao qual a esquerda à esquerda do PS tem de responder e o desafio que tem de lançar ao PS. Se o PS quiser escolher a direita para parceiro de governo ou compère parlamentar que o faça, mas que não diga que foi por falta de comparência que não foi possível governar à esquerda.
jvmalheiros@gmail.com
 
 
 

sábado, 13 de dezembro de 2014

NOTÍCIAS À ESQUERDA 9



NOTÍCIAS À ESQUERDA   9


A sondagem revelada hoje, 12/12/14, demonstra bem o problema político nacional e as próximas eleições para a AR certamente não andarão muito longe deste resultado.
E depois?, voltamos sempre à mesma, no conjunto a esquerda tem a maioria mas a alternativa não se concretiza e a alternância no poder continua com políticas semelhantes.
A listagem abaixo é elucidativa e evidencia que as esquerdas somadas em 13 eleições só por três vezes tiveram menos de 50%.


Significativo é o facto da direita em conjunto ter menos que o PS, mas este não chega com 37,5% à maioria absoluta, pela qual se irá bater para não ficar dependente de alianças e compromissos para formar governo.
Outro dado significativo é verificar que numa situação política e social tão dramática e negra a esquerda não PS não tira partido da situação, até enfraquece face à queda do Bloco em desagregação e que corre o risco de desaparecer. Continuará como esquerda de protesto, o que também é necessário, mas sem peso para forçar a concretização de uma política económica e social alternativa.
Entretanto o país vai sendo destruído e vendido (resta a TAP e a CGD ), o SNS e a escola pública em delapidação, as pensões  e salários encolhem, a emigração como saída para os jovens, a austeridade que continua com a dívida voraz e sem fundo que nunca se paga e serve de pretexto para o governo mais reaccionário que tivemos em democracia ( a qual também se degrada pela corrupção e autoritarismo ), fomentar o trabalho sem dignidade e sem direitos.
Que fazer? Estamos condenados a continuar assim, sem esperança nem perspectiva de real mudança?

Por isso pensamos que é