Charingado é um termo algarvio polivalente que significa lixado,chateado,zangado,e que é usado correntemente com expressões e intenções diversas.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
UM GOVERNO SEM TEMPO PARA ERRAR
01/12/2015
Os últimos dias deram muitas razões de alegria aos democratas. Não, não
digo às pessoas de esquerda. Digo aos democratas. Àquelas pessoas que acreditam
que a soberania reside no povo e que todos os cidadãos, todos sem excepção, são
iguais em direitos e devem ser livres para exercer esses direitos e para
beneficiar dos seus frutos. Àquelas pessoas que acreditam que a liberdade é um
valor universal e que pertence a todos por igual e não apenas aos que têm mais
rendimentos, um nome de família mais ilustre, mais instrução ou mais qualquer
outra coisa.
Depois de um Governo
onde a desigualdade foi transformada em valor supremo, onde nos tentaram
convencer de que a educação devia ser distribuída conforme a origem de classe
dos estudantes, que a cultura apenas devia servir para benefício dos ricos, que
o desenvolvimento do país exigia que se aumentassem as desigualdades salariais
porque aí estava o segredo da competitividade, que a posição de Portugal na
União Europeia devia ser a de um subalterno dos países mais poderosos, que a
segurança no desemprego, na doença e na velhice dos cidadãos apenas podia ser
garantida a quem tivesse um pé-de-meia considerável no banco, pôr um ponto
final nessa iniquidade não pode ser visto senão como um sinal de esperança
pelos democratas.
O grande motivo de
alegria é pois o fim de um Governo de patriotas de lapela e colaboracionistas
no coração que se dispunha a destruir alegremente o país, pilhando o património
que pudessem, destruindo o Estado e humilhando os trabalhadores, aumentando a
dívida pública e recusando-se a defender o país nos organismos internacionais
para não indispor os poderes.
Outro motivo de
alegria é o programa do Governo do Partido Socialista, onde o combate ao
empobrecimento, ao desemprego, a defesa dos serviços públicos e a aposta na
educação, na investigação e na inovação ocupam um papel central. É curioso que
os senhores antiliberais que se chamam a si mesmo “liberais” para fingir que
prezam a liberdade, mas que apenas defendem a liberdade dos poderosos
explorarem os mais frágeis, nunca vieram a terreiro dizer que a pobreza e o
desemprego eram intoleráveis porque reduziam a nada a liberdade de escolha dos
cidadãos.
Outro motivo de
alegria - aqui, principalmente para os cidadãos de esquerda - são os acordos de
incidência parlamentar celebrados entre os PS e os partidos à sua esquerda para
viabilizar o Governo, o programa e a governação socialista.
Estes acordos não
deveriam ser apenas motivo de satisfação para as pessoas de esquerda porque
eles significam algo que todos os democratas deveriam prezar: o fim do
famigerado conceito antidemocrático de “arco da governação”, que defendia e
pretendia incutir no espírito dos cidadãos a ideia segundo a qual alguns
partidos possuíam um direito divino a exercer a governação e que outros
deveriam para sempre ficar relegados à oposição, numa espécie de coro sem
poder; e o fim de uma tradição de acção política por parte dos partidos à
esquerda do PS baseada na crítica e no protesto mas que só raramente era
submetida à prova da realidade. A entrada do BE, do PCP e do PEV para o clube
dos partidos que podem participar na governação - como manda o direito, a
democracia e a decência em relação a todos os partidos com assento parlamentar
- significa que, pela primeira vez na história da democracia, a reserva de
ideias onde mergulham as raízes da governação é mais rica do que antes e
permite, por isso, encontrar melhores soluções.
Agora que o Governo
está em funções e que tivemos uns dias para celebrar, entramos na fase mais
séria da acção política. Sabemos todos que os riscos são imensos: a nossa
economia está tão frágil como antes do XIX Governo de Passos Coelho; as nossas
finanças estão ainda mais frágeis (apesar da propaganda); as reformas
estruturais necessárias (justiça, administração pública, energia, inovação,
formação profissional, etc.) não foram feitas e apenas se procedeu, com esse
nome, à redução dos salários e à precarização do trabalho; a fragilidade dos
bancos é maior; a situação económica e financeira da Europa está mais frágil; o
ambiente internacional mais agitado. O que nos espera é difícil e será
provavelmente duro. Como cidadãos, o que nos cabe é exercer o dever da maior
exigência cívica que este país já viu em relação ao Governo de António Costa. A
nossa responsabilidade é - ao contrário da deselegante descarga de fel de
Cavaco Silva e da irresponsável oposição sistemática prometida pelo PSD e pelo
CDS - garantir ao novo Governo toda a lealdade e toda a cooperação mas nenhuma
condescendência, nenhuma complacência. Não temos tempo. Este Governo vai ter de
governar bem em tempos difíceis e isso também depende de nós, da exigência que
demonstrarmos, da vigilância que exercermos, das críticas que fizermos, dos
debates que promovermos.
Uma das circunstâncias
que me dão maior confiança neste Governo é, curiosamente, uma que preocupa
alguns comentadores: a sua dependência parlamentar do BE e do PCP. A mim, essa
vigilância dá-me confiança e espero que, com ela, o PS possa mostrar o melhor
de si.
jvmalheiros@gmail.com
terça-feira, 10 de novembro de 2015
ESPERANÇA!
Hoje, a esta casa, regressou a Democracia. O Voto da maioria triunfou e abriu um novo caminho de esperança, de mais justiça social. As pessoas concretas e os seus reais problemas passam a contar mais que os interesses egoístas dos "mercados".
A aritmética foi clara, 62% dos eleitores votaram contra a austeridade assassina que empobreceu deliberadamente o país, contra 38% que ainda acreditaram que tal política era melhor.
E são os representantes dos 38% que afirmam ter ganho e querem governar a todo o custo para manter a mesma política suicida. Mais, agarrados ao poder e às mordomias acusam os outros de quererem assaltar ilegalmente o poder. Desfaçatez nunca lhes faltou.
Hoje abri a garrafa de champagne que estava desde Domingo no frigorífico à espera desta votação, e aqui em casa brindamos à Esperança num Portugal melhor, mais justo e decente.
MC
10/11/2015
Sabemos que os tempos que se avizinham
serão difíceis. Um governo que defenda estes princípios será atacado por todos
os interesses.
Tomemos um exemplo.
Apenas um exemplo. “Proibição das execuções fiscais sobre a casa de morada de
família relativamente a dívidas de valor inferior ao valor do bem executado e
suspensão da penhora da casa de morada de família nos restantes casos”.
É uma das 70 medidas sobre as quais PS,
PCP, BE e PEV chegaram a acordo.
Será uma medida justa? É justa. Haverá
algo mais elogioso que se possa dizer de uma medida política? Haverá alguma
etiqueta mais nobre no dicionário? Penso que não. Haverá algo que seja melhor
para a sociedade, para a economia, para o desenvolvimento, do que uma medida
justa? Penso que não. Porque as pessoas tratam os outros como são tratadas e
nada pode ser melhor para uma sociedade onde todos tentam ser justos, onde todos
tentam fazer o bem.
É uma medida humana, feita à medida das
pessoas. Uma daquelas que quereríamos que alguém tomasse em nossa defesa e em
defesa da nossa família se estivéssemos naquela posição de fragilidade e, por
isso, simplesmente por isso, uma medida que é justo que todos tomemos em defesa
dos outros.
Qual é o benefício? Retirar de cima das
famílias, dos pais, o terror de que os seus filhos sejam forçados a viver na
rua, a vergonha de que a sua família seja obrigada a esmolar abrigo junto de
familiares ou amigos, roubando-lhes o resto de dignidade que o desemprego, as
dívidas e a pobreza não levaram ainda. Tirar a casa a uma família é condená-la
a uma pena perpétua, se não de miséria pelo menos de opróbrio, de vergonha e de
medo. E no entanto… no entanto… quantos milhares de famílias não foram assim
lançadas para o inferno nos últimos anos, em nome de uma política cega que
considerava que era preciso castigar as pessoas mais frágeis pela sua
fragilidade e de uma burocracia apenas capaz de ver números onde havia pessoas?
Quantos milhares de famílias não foram assim lançadas para o inferno em nome de
uma destruição redentora que as tornaria mais fortes, mais eficientes, mais
diligentes? Quantas crianças não foram lançadas para a rua para ensinar aos seus
pais que deviam ser mais empreendedores?
Qual é o prejuízo desta medida? Qual é o
inconveniente, o custo? Nenhum. As dívidas podem ser cobradas de outra forma,
eventualmente penhorando até outros bens (salários, bens móveis) e o facto de
uma família não ser condenada ao desespero aumenta a probabilidade de que um
dia venha a equilibrar a sua vida e pagar com mais facilidade as suas dívidas.
Se houvesse apenas esta medida no
acordo, isso seria suficiente para marcar o dia da sua assinatura com uma pedra
branca. Mas não há. Como esta há muitas outras, que têm em comum algumas
preocupações centrais: a protecção dos mais frágeis, a inclusão dos mais
sacrificados, o reforço dos serviços públicos essenciais, a sustentabilidade
ambiental.
Sabemos que isto é apenas o início, mas
é um início auspicioso. Um programa que protege os cidadãos acima de tudo, em
vez do dinheiro. Um programa que olha para os cidadãos como tendo todos a mesma
dignidade.
Sabemos que isto é apenas o início e que
tudo o que segue, daqui para a frente, será muito difícil. Mas todas as
dificuldades são bem-vindas quando se trata de construir um futuro solidário,
sem excluídos, sem escorraçados, sem párias. Um futuro como sonhámos depois do
25 de Abril e que depois, sem que se tenha percebido bem porquê, se perdeu em
labirintos, intrigas e areias movediças.
O acordo PS-BE-PCP-PEV não é uma
esperança porque garante a estabilidade do governo do PS, em vez de um governo
PSD-CDS. O acordo da esquerda é uma esperança porque ele esboça de novo um
programa que defende os direitos de todos contra os privilégios de alguns, o
bem-estar de todos contra a ganância de alguns, a liberdade de todos contra os
abusos de alguns, a igualdade de todos contra as prerrogativas de alguns, a
solidariedade de todos contra o egoísmo de alguns.
Sabemos que os tempos que se avizinham
serão difíceis. Um governo que defenda estes princípios será atacado por todos
os interesses, por todos os privilegiados de todos os privilégios, por todos os
preconceitos, por todos os rancores. Sabemos que as primeiras frentes de ataque
se concentrarão nas frestas existentes entre os vários signatários, tentando
desfazer o seu acordo, ampliar diferenças, acicatar rivalidades, difundir
intrigas, comprar traições. Sabemos que o acordo que hoje celebramos tem
fragilidades porque acabou de nascer e porque vai ter de ser reconstruído
dia-a-dia pelos seus autores, numa prática quotidiana de debate que confronte
todas as diferenças sem perder de vista os grandes objectivos. Sabemos que
muito pouco está garantido e muito está em jogo. Mas também sabemos que temos
muito aliados dentro e fora das fronteiras, em todos os homens e mulheres de
boa vontade. Sabemos que a honra é mais forte que a ignomínia. Que a dignidade
é mais forte que a subserviência. Que a liberdade é mais forte que a submissão.
E sabemos, enfim, que podemos ter esperança.
jvmalheiros@gmail.com
terça-feira, 27 de outubro de 2015
O QUE ESTÁ EM CAUSA?
O QUE ESTÁ EM CAUSA?
Metade das famílias portuguesas vive com menos de mil
euros por mês
Por Lusa
27/10/2015
Entre os cerca de 1200 inquiridos pela
Associação para a Defesa dos Direitos do Consumidor, 18% das famílias não
conseguem pagar as contas e aprestação da casa.
As famílias com mais
dificuldades em fazer face às despesas diárias são as que têm filhos pequenos
Paulo Pimenta
Metade das famílias
portuguesas com filhos menores sobrevive com menos de mil euros por mês e 18%
não consegue pagar a prestação da casa e as contas da água, luz e gás, revela
um estudo da Deco.
Sim, são as desigualdades crescentes, o modelo capitalista de destruição económica assente em baixos salários, o desemprego e a emigração, a destruição dos serviços públicos, a justiça que desprotege os pobres, a venda do país ao desbarato, o que na verdade está em causa.
Não a NATO e o Euro etc. O que une as esquerdas é o sentimento de urgência em travar este ataque destruidor da democracia e criar condições democráticas de alternativa.Daí a fúria dos "cavacos"
Coisas simples que Cavaco não percebe
27/10/2015
O princípio que afirma
“quem ganha as eleições deve governar” tem sido repetidamente enunciado,
glosado, gritado e guinchado pela direita nos últimos dias. E, dito assim, e
ouvido com o sentido crítico em ponto morto, parece fazer sentido. Mas, neste
particular como em tudo, convém distinguir a opinião dos factos e acontece que
a norma constitucional ou o princípio jurídico ou a tradição política que
afirma “quem ganha as eleições deve governar” não existe. E, quando alguém
afirma que ele existe, mente.
Se alguém quiser dizer “eu acho que quem
ganha as eleições deve governar” tem todo o direito de o fazer, mas trata-se
aqui de uma expressão de vontade pessoal, que não tem (e, verdade seja dita,
não exige) nenhuma ancoragem na realidade da lei ou da política. Da mesma
maneira, é aceitável que se diga “em princípio, quem ganha as eleições deve
governar” mas, como todas as frases que começam com esta fórmula de caução,
isso quer dizer que, em muitas circunstâncias, não acontece como “em
princípio”.
De facto, se “quem ganhasse as eleições
devesse governar” e se esse tivesse sido o entendimento dos constituintes,
teria sido fácil incluir o preceito na Constituição. Mas o que lá está escrito
é que “o Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os
partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os
resultados eleitorais” (artigo 187º) e que o novo governo, para governar, não
pode ver o seu programa rejeitado pelo Parlamento (artigo 195º). Ou seja, para
nomear um primeiro-ministro é preciso que o Presidente da República o queira
fazer, que ouça previamente os partidos políticos e que a sua nomeação “tenha
em conta os resultados eleitorais”, o que é, convenha-se, uma norma algo vaga,
que apela fundamentalmente ao bom senso. E, para que um novo governo entre
efectivamente em funções basta que o seu programa não seja rejeitado pelo
Parlamento.
Por que é que quem ganha as eleições
(entenda-se por esta expressão “o partido ou coligação que tenha obtido mais
votos”) não adquire, por esse simples facto, o direito a governar, sem mais
considerações? Porque um partido pode ter mais votos que qualquer um dos outros
e não ter, por esse facto, um apoio suficiente no Parlamento para garantir a
governabilidade e estabilidade (como acontece com a coligação PSD-CDS neste
momento). Assim, sabiamente, a Constituição impõe ao Presidente da República
que use do bom-senso (uma imposição que Cavaco Silva considera intolerável) e
faça o seu melhor para, sem violar o sentimento expresso nas urnas pela maioria
dos portugueses, encontrar uma solução governativa não só funcional mas tão
estável quanto possível.
No máximo, poderia defender-se que “quem
ganha as eleições deve ser indigitado PM” e apresentar-se depois ao Parlamento
ver se consegue um apoio maioritário ou não - mas a Constituição nem sequer
isso exige.
Uma das razões por que o princípio “quem
ganha as eleições deve governar” ou “o partido que tem mais votos deve
governar” não faz sentido é porque, a existir, ele implicaria que, no caso de
uma maioria relativa (como a que tem a coligação PSD-CDS neste momento) outros
partidos fossem obrigados a deixar passar o programa de governo, de forma a
viabilizar o governo minoritário, ainda que tivessem de ir contra a sua
consciência e trair o seu eleitorado, os seus programas, princípios e promessas.
Não faria sentido. Os fanáticos da direita que gritam que o PSD deve poder
governar porque teve mais votos que o PS estão de facto a dizer, forçosamente,
que o PS devia deixar passar o programa do PSD, por muito que aqueles o
considerem anti-patriótico, anti-democrático, socialmente injusto,
empobrecedor, irrealista e destruidor de riqueza. Não faz sentido e é evidente
que se trata de uma argumentação desonesta, que os próprios nunca aplicariam se
a situação fosse ao contrário.
Por que razão, então, houve no passado
governos minoritários? Porque não foram rejeitados pela maioria do Parlamento.
A Constituição, note-se, obriga o
Presidente da República a “ter em conta os resultados eleitorais”, globalmente,
e não apenas os votos do partido mais votado. Se Cavaco insistir, de forma
sectária, em apenas indigitar e empossar um Governo se ele for encabeçado pelo
seu próprio partido, ainda que ele seja minoritário e tenha contra si a maioria
do Parlamento, e se recusar a indigitar e empossar um Governo dirigido por
António Costa, ainda que ele tenha a suportá-lo a maioria do Parlamento, estará
a ignorar este imperativo constitucional. Será uma decisão de uma extrema
gravidade, inaceitável num regime democrático e incompatível com um regime
democrático.
Há quem vocifere, à direita que, se é
assim, então passa a ser impossível ter governos minoritários e vai ser muito
mais difícl ter governos estáveis. Não é verdade. Um governo minoritário pode
ser respeitável, o que o actual governo PSD-CDS não é e o próximo também não
será. Não é o facto de esta coligação não conseguir gerar um governo que seja
minimamente respeitável que significa que outro governo minoritário não o possa
ser.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
VOTO INÚTIL
o voto inútil
06/10/2015
Um em cada quatro portugueses que
votaram PSD ou CDS em 2011 fugiu agora do voto à direita.
A coligação de direita PaF ganhou as
eleições. Contra toda a razoabilidade, mas como as sondagens previam. Ganhou as
eleições, mas perdeu. Perdeu a maioria absoluta. Perdeu cerca de 12% pontos
percentuais. Perdeu mais de 730.000 votos. Perdeu 22 ou 23 deputados.
Se olharmos para estas perdas, a leitura
é evidente, independentemente dos gostos políticos. Há menos pessoas hoje a
querer um governo da direita do que havia em 2011. Um número muito elevado de
portugueses que votaram PSD ou CDS em 2011 (um em cada quatro), fugiu agora do
voto à direita, o que significa uma condenação da governação do PSD-CDS e uma
condenação das políticas de austeridade. A base de apoio da direita encolheu.
O PS perdeu as eleições. Perdeu porque
não ultrapassou o PaF. Perdeu porque fez um programa de direita light, sem
alma, sem convicção, sem visão e sem coragem. Perdeu, mas ganhou. Ganhou mais
de quatro pontos percentuais. Ganhou mais de 180.000 votantes. Ganhou 13 ou 14
deputados. A base de apoio do PS cresceu. Quanto a António Costa, perdeu sem
ganhar nada. Perdeu porque não conseguiu melhor, em termos numéricos, que a
vitória poucochinha de António José Seguro nas europeias - que, foi, apesar de
tudo, uma vitória.
Mas é claro que estes números não dizem
tudo por si só. A coligação PSD-CDS ganhou porque continua a ser a formação
partidária com mais votos. O PS perdeu porque não conseguiu ultrapassar o PaF e
perdeu porque nem sequer captou todos os votantes que abandonaram o PSD-CDS.
Ou, se os captou pela direita, perdeu a maioria deles pela esquerda.
O Bloco de Esquerda ganhou. Foi o único
que ganhou mesmo. Quase duplicou a sua votação em número de votos (288.206 para
549.153) e em percentagem (5,19% para 10,22%) e obteve um recorde em número de
deputados: 19 em vez dos 8 que tinha e mais que os 16 que eram a sua marca
máxima.
A CDU também ganhou. Ganhou porque
aumentou a sua percentagem de votantes (7,94% para 8,27%). Ganhou porque
conquistou 3.400 novos votantes. Ganhou mas perdeu. Perdeu porque foi
ultrapassado pelo BE. Perdeu porque, dos mais de 260.000 votantes que se
deslocaram nesta eleição para a esquerda do espectro parlamentar, apenas captou
aqueles escassos 3.400.
O CDS ganhou. Ganhou porque faz parte do
PaF, que ganhou. Mas como o PaF nem sequer conseguiu o mesmo número de votos
que o PSD sozinho nas últimas eleições (teve menos uns 167.000), fica a
suspeita de que o CDS possa ter perdido. Talvez tenha até desaparecido.
O PAN ganhou porque elegeu um deputado.
O Livre/Tempo de Avançar perdeu porque não elegeu nenhum.
A direita ganhou porque o
partido/coligação mais votado é de direita e porque vai formar governo. Mas
perdeu porque os cidadãos deram à esquerda quase o dobro de votos que deram à
direita e porque o governo de direita viverá numa instabilidade constante
devido à falta de apoio parlamentar.
A esquerda ganhou porque teve quase duas
vezes mais votos que a direita. Mas perdeu porque não se consegue entender para
formar governo, nem sequer para concretizar uma actividade legislativa
consequente.
A direita ganhou porque a esquerda não a
irá derrubar com medo de que o PSD e o CDS se vitimizem e consigam uma maioria
absoluta em eleições antecipadas. A esquerda ganhou porque vai ter o governo a
comer da sua mão no Parlamento.
Quanto aos partidos, é isto.
Quanto aos cidadãos, é diferente. Os
cidadãos votaram maioritariamente contra a política de austeridade mas vão
continuar a ter um governo neoliberal austeritário. Perderam. O seu voto foi
inútil.
Os cidadãos votaram maioritariamente à
esquerda, mas não vão ter um governo de esquerda porque as organizações de
esquerda não conseguem construir uma plataforma comum elementar que reúna o PS
com os partidos à sua esquerda. Perderam. O seu voto foi inútil.
Os cidadãos que votaram no PS, por
convicção ou “voto útil”, todos decididos a impedir a vitória da direita, vão
ver o PS a viabilizar, “violentamente” ou não, o governo PSD-CDS. António Costa
fez, na própria noite das eleições, a lista das suas moderadas exigências para
deixar passar o governo de direita e Fernando Medina repetiu o discurso ontem
nas comemorações do 5 de Outubro. Costa não vai fazer coligações negativas que
tragam instabilidade. Os votantes no PS perderam. O seu voto foi inútil.
Como foi inútil o voto dos 43% que se
abstiveram e a quem se pode aplicar a citação de Einstein sobre os militares:
por que razão têm estas pessoas um cérebro, quando uma simples medula espinal
seria suficiente para as suas necessidades?
A principal conclusão destas eleições é
esta: não há voto mais inútil do que o “voto útil” porque ele irá trair a
vontade dos eleitores na primeira oportunidade.
Os portugueses vão continuar a
empobrecer, com a excepção dos cinco por cento de cima. O nosso património
colectivo vai continuar a ser dilapidado e oferecido a baixo preço aos amigos
dos cinco por cento. Os serviços públicos vão continuar a degradar-se e a ser
privatizados. Passos e Portas vão continuar a dobrar a espinha perante os
diktats estrangeiros.
jvmalheiros@gmail.com
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
4 DE OUTUBRO RESIGNAÇÃO OU VIRAGEM
Estamos na ponta final do período eleitoral mais negro e perigoso da nossa Democracia. Caso ganhe a coligação de direita vai continuar a política de austeridade acompanhada do aumento da pobreza e da diminuição do papel do Estado na saúde, nas reformas e nos apoios sociais.
Desejando ardentemente que perca e bem, não basta derrotar este desgraçado governo, é necessário uma alternativa que só pode ser obtida através de um entendimento das forças democráticas. Este é o problema central, caso não se entendam teremos governos fracos e de curta duração.
Os dois textos que se divulgam ajudam melhor a perceber o que está em jogo, e são mais instrutivos que os debates ideológicos e políticos com linguagem de pau que muitos não percebem.
Pessoalmente vou votar Livre/tempo de Avançar, a única coligação que à partida afirma que quer na AR desbloquear a incompreensível teimosia e falta de diálogo das forças democráticas. Não é com ódios velhos que resolvemos os problemas actuais. Precisamos de nova mentalidade e responsabilidade. Primeiro o país e os portugueses.
Opinião
A pobreza, os pobres, as políticas governamentais e as
promessas eleitorais
Por Maria José
Casa-Nova
01/10/2015
Vejo pobres diariamente como não via
desde a minha infância.
Por razões
profissionais, desloco-me com alguma regularidade a Lisboa. Numa das últimas
viagens, à chegada a Santa Apolónia, com o tempo à justa para a reunião de
trabalho que me esperava, almocei num pequeno restaurante existente na estação.
No final da refeição engolida
rapidamente e sem tempo para a terminar, levantei-me para pousar o tabuleiro.
Nesse momento, um senhor aproximou-se e, de forma muito delicada, perguntou:
“Desculpe, não vai comer mais? Posso ficar com o tabuleiro?” Não interessa como
reagi, mas a indignação que senti. Vejo pobres diariamente como não via desde a
minha infância. Uma pobreza mais ou menos camuflada, mais ou menos
envergonhada, mais ou menos flagrante, mas ver procurar alimento nos caixotes
do lixo ou ver pedir os restos dos alimentos de outros, gela-me o corpo e a
alma, embarga-me a garganta, rasa-me os olhos, faz doer todas as terminações
nervosas do corpo.
Nos últimos anos vimos crescer o número
de pobres e a pobreza (ver artigo meu e de outros colegas no Público de
09/06/2015, “Infâncias pobres e pobreza em Portugal como escolha política”); vimos
crescer assustadoramente as lojas sociais e as cantinas sociais. Olho-as com o
olhar de socióloga socialmente comprometida. O seu significado faz-me pensar no
país em que nos tornamos: crescimento exponencial do desemprego e consequente
crescimento exponencial da emigração (dos menos e dos mais qualificados).
Ouvimos governantes referir que é preciso “sair da zona de conforto” e emigrar
como se algum conforto houvesse nas situações em que a diferença entre emigrar
ou permanecer é do tamanho da incomensurabilidade entre morrer devagar ou
(sobre)viver no sofrimento do abandono familiar, da solidão, da dor de ver o
seu país retroceder na humanização da sua sociedade. Vimos o fecho de
hospitais, o despedimento de profissionais de saúde, o despedimento de professores,
o despedimento de trabalhadores no sector privado; vimos a descapitalização da
segurança social; vimos a privatização de sectores-chave da nossa economia,
cujo montante arrecadado foi sorvido pelos custos dos escândalos financeiros do
BPN e do BES e não na melhoria das condições de vida das portuguesas e dos
portugueses. Vimos o nosso (ainda não sustentado) Estado Social transformar-se
num Estado assistencialista; os Direitos Sociais transformados em caridade, em
benevolência estatal, as reformas cortadas, o Rendimento Social de Inserção um
luxo e não uma segurança de limiar mínimo de sobrevivência física. E hoje,
atónita, vejo o ainda governo referir que “a próxima legislatura será
obviamente social” (Paulo Portas, Jornal I, 29/07/2015) e o Primeiro Ministro,
Passos Coelho referir, na apresentação do programa da coligação PSD/CDS-PP, que
“Poderemos nos próximos quatro anos levar mais longe a aposta na Educação, a
aposta na Saúde, a aposta no social. Nos próximos quatro anos poderemos
devolver mais Estado Social, mais liberdade de escolha, afirmando uma política
segura” (Jornal I, 29/07/2015). Estaremos a falar das mesmas pessoas que
destruíram o excelente Serviço Nacional de Saúde que Portugal tinha, que
transformaram o Estado Social em Estado Assistencialista, que destruíram o
Estado Social? A resposta é SIM; estamos a falar das mesmas pessoas, que hoje
agem querendo branquear as suas políticas; que hoje agem como se tivessem sido
outros a empobrecer Portugal e os portugueses, a fazer definhar a sua economia;
a fazer com que haja portugueses que aceitam trabalhar por 300 euros mensais. A
fazer com que jovens de classes de menor estatuto social que, possuindo uma
licenciatura e um mestrado tirados na expectativa de um futuro melhor do que o
dos seus pais, não conseguem trabalho não qualificado por excesso de
habilitações académicas ou têm de mentir para conseguir emprego nas caixas dos
hipermercados, permanecendo assim na sua condição social de origem, sem
qualquer possibilidade de mobilidade social ascendente.
Mentem. Mentem como sempre mentiram,
desde o tempo em que eram oposição e depois se tornaram governo (ver artigo
meu, no PÚBLICO de 08/09/2013, “Pilares da democracia e prática política
actual em Portugal”). ENGANAM os portugueses, tratando-os, não como cidadãos,
mas como súbditos (de sub-dito), menores (de inferiores) sem capacidades ou
competências para saber distinguir a verdade da mentira.
Estes senhores deviam ser
responsabilizados e penalizados por enganar os portugueses e empobrecer intencionalmente
o país, indo pra além da Troika, como tantas vezes referiram. Esperemos
que os portugueses e as portuguesas o façam, votando no próximo Domingo, por um
Portugal com futuro, por um povo com dignidade.
Professora universitária, coordenadora
do Núcleo de Educação para os Direitos Humanos, Universidade do Minho, membro
do núcleo fundador do Manifesto para um Mundo Melhor (manifesto internacional
de cientistas sociais). mjcasanova@ie.uminho.pt

Opinião
Portugal é um país mais à esquerda ou mais à direita?
Por Boaventura
Sousa Santos
01/10/2015
"Não conheço outro país na Europa
onde os jornais de referência dêem tanto espaços a comentadores de
direita".
Convém começar por
definir o que é ser esquerda. Numa concepção minimalista, esquerda é toda a
posição política que promove todos (ou a grande maioria dos) seguintes
objectivos: luta contra a desigualdade e a discriminação sociais, por via de
uma articulação virtuosa entre o valor da liberdade e o valor da igualdade
plasmada no equilíbrio entre os direitos civis e políticos e os direitos
sociais, económicos e culturais; defesa forte do pluralismo, tanto nos media
como na economia, na educação e na cultura; democratização do Estado por
via de valores republicanos, participação cidadã e independência das
instituições, em especial, do sistema judicial; luta pela memória e pela
reparação dos que sofreram (e sofrem) formas violentas de opressão; defesa de
uma concepção forte de opinião pública, que expresse de modo equilibrado a
diversidade de opiniões; defesa da soberania nacional e da soberania nacional
de outros países; resolução pacífica dos conflitos internos e internacionais.
Ser de direita é ser contra todos ou a grande maioria destes objectivos.
A expressão o “país” usada na pergunta é
ambígua neste contexto. Se o país for o conjunto dos portugueses é difícil
responder, pois os inquéritos à opinião nunca incidiram sobre todos os
objectivos. Se o “país” for a opinião publicada nos meios de comunicação
principais, Portugal é de direita. Excluindo os países que foram parte do bloco
soviético, não conheço outro país na Europa onde os jornais de referência dêem
tanto espaço (comentários regulares, últimas páginas) a comentadores de
direita. Chega ser escandaloso pelo estilo trauliteiro da direita que tem voz
privilegiada. Se o “país” forem os portugueses que votam nas eleições, então o
pais é inequivoca e consistentemente de esquerda, se considerarmos que os partidos
de esquerda são o PS, PCP, BE e agora o Livre e outros pequenos partidos que se
consideram de esquerda radical. Ao longo dos anos, este conjunto tem sido quase
sempre o preferido dos portugueses.
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