sexta-feira, 9 de setembro de 2016

OLIMPíADAS 2016

Um olhar sobre o desporto em Portugal que explica as causas de falta de resultados e a pobreza de medalhas olímpicas.

Rio 2016: Exigir sem bases
Rio 2016: Exigir sem bases
Por João Paulo Bessa
08/09/2016
O desporto em Portugal assenta num sistema caduco, desorganizado, sem objectivos e sem estratégia.
Existe uma enorme tendência de uma boa parte dos portugueses para colocarem infundadas expectativas sempre que há representações desportivas nacionais em confronto internacional. Seja pela iliteracia desportiva que nos caracteriza, pelo mero desconhecimento da relatividade das coisas ou por um qualquer aproveitamento interesseiro, as representações desportivas nacionais são analisadas pelas aparências, sem qualquer objectividade e ignorando o seu meio de inserção. Como se tivéssemos um sistema desportivo exemplar.
Se as esperanças em notáveis resultados podem resultar da vontade de nos fazermos valer, a sua transformação nas elevadas expectativas de quase certezas só serve para abrir o campo à desilusão. E, portanto, não havendo vitórias de arraso e independentemente da qualidade dos diversos resultados, tudo é mau ou desastroso, seja qual for o ponto de vista da análise, diz-se e escreve-se. Ou seja: bestiais na formatação das expectativas a bestas perante a aparência dos resultados. Tudo num salto palavroso de nota 10.
E mais uma vez assim foi no regresso da Missão portuguesa dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Elevadas expectativas fundadas em irrealismos – como se não se tratasse de uma competição desportiva de altíssimo nível em confronto com os melhores e adequadamente preparados para tentar a vitória e onde só 8% dos 11 544 atletas presentes podem regressar com medalhas conquistadas – marcam o adjectivo da análise. Uma só medalha? E apenas bronze?! Um desastre!
Terá sido?!
Ao longo de 24 presenças olímpicas, o desporto português conseguiu 24 medalhas – quatro de ouro (Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora), oito de prata e 12 de bronze – numa média de uma medalha por cada participação. O que significa que Portugal está longe de campeões como os Estados Unidos com as suas 2546 medalhas. E tão pouco se aproxima dos países latinos europeus como a França (1169 medalhas), Itália (605), Espanha (148), Roménia (306) ou ainda da Holanda (195) ou Bélgica (164) – estes dois últimos com populações próximas da portuguesa.
Com a medalha conseguida pela notável e persistente Telma Monteiro, Portugal ficou dentro da sua média e colocou-se, com as 16 modalidades, entre as 28 possíveis, em que participou, em 78º lugar no Medalheiro – o que significa que conseguiu melhor do que os 119 países participantes que não obtiveram qualquer medalha – apenas 42% dos 205 países presentes obtiveram uma ou mais medalhas.
Lembre-se que todos os atletas portugueses presentes se qualificaram – obtendo as marcas estabelecidas – para poderem competir nos Jogos. Ninguém foi, portanto, sem mérito ou apenas para participar – atribuição de espectadores – mas sim para competir, embora e naturalmente, balizados pelas marcas conseguidas. Balizas que devem, desde logo, limitar as expectativas. Dando-lhes realidade – pensar, por exemplo, que as notáveis prestações de Nelson Évora com a melhor marca pessoal do ano e Patrícia Mamona com novo recorde nacional, poderiam garantir a certeza de medalhas é ignorar a existência de outros atletas com as competências e capacidades adequadas à vitória. Ignorar portanto que estamos integrados numa competição do mais elevado nível e de particulares características.
Os resultados globais da Missão foram maus? Não, não foram. E foram melhores do que o contexto onde se prepararam. Na sua enorme maioria – excepção feita a um ou outro erro, a um ou outro falhanço, a uma ou outra menor atitude – os atletas portugueses bateram-se com grande dignidade e tudo tentaram para honrar a responsabilidade da representação em que estavam investidos.
Os Jogos Olímpicos constituem a melhor e maior montra mundial de demonstração de capacidade desportiva de cada país e permitem uma análise comparativa global. A juntar a esta medalha de bronze, os atletas portugueses conseguiram dez Diplomas olímpicos, isto é, obtiveram dez classificações entre os 4.º e 8.º lugares classificando assim 12% do total dos seus atletas em finais. Entre os 9.º e 16.º lugares – habitualmente designados por semifinalistas – a Missão portuguesa contou com 16 posições. E colocou ainda seis atletas no 17.º lugar. Ou seja: Portugal conseguiu 33 classificações – 36% do total dos seus atletas – abaixo do 20.º lugar nas 57 provas em que teve a participação de seus representantes. Refira-se ainda que dos 92 atletas portugueses presentes – 32 mulheres e 60 homens – 54 deles não tinham qualquer experiência olímpica. Tratando-se da competição desportiva entre as competições desportivas, os resultados conseguidos apresentam-se com mérito que baste e não são compatíveis com o que se escreveu, disse ou colocou nas redes sociais.
Poderiam os resultados serem melhores? Claro! Podem sempre. Desde que haja a adequada aproximação de condições aos melhores competidores.
A realidade do sistema desportivo português é fraca e encontra-se muitos furos abaixo dos padrões europeus. Nas modalidades olímpicas temos cerca de 400 mil inscritos nas respectivas federações desportivas nacionais (últimos dados oficiais referentes a 2014), o que representa um número ridículo, impeditivo de competições internas de elevado nível, quando comparado com outros países europeus e que está longe das potencialidades de um país com 10 milhões de habitantes.
O desporto em Portugal assenta num sistema caduco, desorganizado, sem objectivos e sem estratégia, com uma mistela de conceitos confusos e pouco clarificadores onde abundam as frases feitas do desporto para Todos – e o desporto não é para todos: é para quem pode e, dentro destes, para quem quer – e de que o desporto dá saúde – o desporto é para quem tem saúde – confundido uma actividade de exigência, superação e responsabilidade de resultados com actividade física, essa sim, para todos, adaptável ás necessidades e que se pretende praticável para uma vida inteira. Curiosamente a actual Lei de Bases (Lei 5/2007) é designada por Lei de Bases da actividade física e do Desporto, designação que não parece preocupar ou induzir seja quem for.
Com um Desporto Escolar que não produz efeitos visíveis – andebol, basquetebol e voleibol estão inseridos no sistema escolar desde os anos 30 do século passado e nunca se qualificaram para os Jogos – quer na detecção de talentos, quer no aumento de inscrições federadas e que desde há muito deveria ter passado para o estádio de desporto em idade escolar articulado com clubes locais e federações de utilidade pública desportiva. Com um objectivo claro: introdução dos modelos desportivos das várias modalidades e detecção de talentos com o devido encaminhamento.
Não há dinheiro disponível para financiar as necessidades desportivas diz o Governo através do seu Secretário de Estado (RTP Notícias, 18 de Agosto de 2016). Mas muitas das mudanças necessárias que permitirão adaptar o desporto português às necessidades competitivas actuais, não custam dinheiro. Exigem apenas transformações. De conceitos, de mentalidades, de estruturas.
Desde logo estabelecendo como Missão das federações de utilidade pública desportiva a criação de condições para que os nossos atletas possam competir internacionalmente em termos de igualdade, nomeando a sua dimensão rendimento como prioritária para assim lhes exigir programas qualificados – e não numéricos – de formação e desenvolvimento, com índices de competitividade elevados e afastando-as das tentações das imensas exigências que se lhes pretende sempre colocar para iluminar fogachos políticos. Também sem custos será a revisão das actuais leis federativas, retirando a mesma medida de fato a corpos com dimensões diferentes e adequando-as e articulando-as, de acordo com as nossas especificidades, com as necessidades do confronto internacional – a definição oficial e legal das modalidades colectivas e individuais (a canoagem é, legalmente, uma modalidade individual!) é, no mínimo, inaceitável e umas e outras não podem reger-se pelas mesmas regras. O mesmo se dirá com o sistema escolar dos atletas que, apesar de um quadro legal facilitador, só enfrentam dificuldades e abusos quer da dupla actividade, quer na forma como são escolarmente tratados. A revisão do actual sistema de formação de treinadores exige também uma radical e urgente transformação sob pena de diminuição do seu número e da sua qualidade. O próprio estatuto do Alto Rendimento necessita de transformação e adequação, ampliando-se, às exigências actuais.
Para que as exigências por melhores resultados possam ter razão de ser – os obtidos no Rio 2016 se são bastante bons dentro do sistema que condiciona o desporto português, não podem ser meta – é absolutamente necessário proceder às transformações que o enquadramento internacional nos exige. Começando por estabelecer os objectivos pretendidos e construindo uma estratégia adequada. No quadro do desporto de rendimento.
Arquitecto e antigo seleccionador nacional de râguebi


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

JORNALISMO NÃO PODE SER ENCOMENDA NEM SUBSERVIÊNCIA AO PODER ECONÓMICO

 O jornalista Vítor Malheiros habituou-nos a ler obrigatoriamente os seus textos, de grande dignidade e frontalidade, não aceitando mordaças mesmo perfumadas.


O jornalismo tem razões para se arrepender todos os dias


23/08/2016

Imaginem que o jornal online Observador, em vez de ser um órgão de propaganda da direita neoliberal, criado e financiado por empresários conservadores empenhados em impor na esfera política e em defender no espaço público uma agenda de privatização de serviços públicos, desregulação económica, liberalização do mercado de trabalho, destruição de direitos sociais e demonização do Estado, fosse um projecto criado e financiado por pessoas ligadas à esquerda, empenhadas em difundir um ideário de combate às desigualdades e à injustiça social e em noticiar a actualidade a partir de um ponto de vista socialmente empenhado e intelectualmente independente dos poderes vigentes. 

É evidente que, nessas circunstâncias, não veríamos um elemento do Observador a ocupar um lugar cativo nos painéis de comentadores da RTP e, se por acaso esse jornal fosse alguma vez citado por outros órgãos de comunicação social, seria identificado como “o jornal de esquerda Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da esquerda radical” e os jornalistas que assim o identificassem considerariam estar a fazer uma descrição não só objectiva mas necessária da fonte em causa.

Porque é que isso não acontece, simetricamente, e pelas mesmas razões, com o actual jornal Observador e porque é que este não é sempre apresentado como “o jornal de direita Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da direita radical”?

Isso acontece devido à hegemonia do pensamento conservador que considera “normal” que se seja de direita, e portanto não digno de ser sublinhado ou sequer referido, e “anormal” que se seja progressista, e portanto exigindo referência que sublinhe esse “desvio”. Para este pensamento hegemónico, ser de direita não é ser nada porque essa é a posição “natural”, enquanto ser de esquerda é ser algo “não natural”. Era precisamente pela mesma razão que, durante o Estado Novo, os apoiantes de Salazar “não faziam política”, por muito radicais que fossem nesse apoio em todas as facetas da sua vida, e os oposicionistas eram considerados “políticos”. 

É evidente que os jornalistas, de direita ou de esquerda, sabem que é tão marcadamente ideológico ser de direita como de esquerda, mas por que razão sublinham então uma coisa e passam a outra em branco? Em certos casos, por mimetismo irracional. Muitos querem apenas to blend in e seguem a onda, imitam os colegas, as revistas, os famosos, os gurus que aparecem nos media – e estes são esmagadoramente de direita mesmo quando “não falam de política”. Noutros casos, por mimetismo premeditado. Querem apenas passar despercebidos e não pôr em risco o seu posto de trabalho. Noutros casos por cálculo. Querem fazer carreira, seja onde for, e aprenderam na escola de antijornalismo por onde andaram que a adulação funciona e que não se pisam os calos dos poderosos. Noutros caso por medo. A direita conservadora está no poder e tem o dinheiro, a força e muito da lei do seu lado. Noutros casos, devido ao ritmo industrial de produção imposto na maior parte das redacções, que obriga a aproveitar a informação primária tal como chega de algum centro de poder e a republicá-la sem tempo para a editar, reconstruir, verificar seja o que for ou sequer pensar. Noutros casos por pura distracção, porque o vento reaccionário é tão constante que se torna hipnótico. Noutros casos ainda, uma minoria, por consciente adesão a um modelo ideológico que se pretende reproduzir.

Estas circunstâncias têm todas algo em comum. São todas contrárias à deontologia que rege o jornalismo, que obriga a uma total independência dos poderes e à adopção de uma atitude de equidade e saudável cepticismo em relação à informação recebida das fontes, oficiais ou não.

Seja qual for a razão em cada caso particular, é por isso que continuamos a ver os noticiários cheios de citações nunca contraditadas de Pedro Passos Coelho, diga este as inanidades que disser no seu escasso léxico e por frágil que seja a sua situação política no interior do partido, e é por isso que qualquer pergunta a um político de esquerda está sempre dedicada a tentar encontrar brechas no entendimento parlamentar à esquerda, mesmo quando elas têm de ser inventadas por uma edição imaginativa. Porquê? Porque é preciso sublinhar, em cada momento, a contranaturalidade de um governo apoiado pela esquerda. Pensamento hegemónico da direita dixit. É também por isso que os pivots fazem uma careta quando dizem o nome de um dirigente do PCP mas não quando dizem o nome de um dirigente do PSD, numa demonstração de sectarismo que pode ser inconsciente, mas não é por isso menos sectária. É por isso que, numa entrevista de Catarina Martins publicada neste jornal, tem de ser colocada em título uma frase que dá a ideia contrária ao pensamento expresso pela entrevistada (dando a impressão de que, se fosse hoje, o BE não assinaria o acordo com o PS) mas que é conforme ao ar do tempo, sempre hegemónico, da direita.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

OLIMPIADAS: PORTUGAL GENEROSAMENTE SÓ PARTICIPA, NÃO COMPETE EGOÍSTICAMENTE POR MEDALHAS

Portugal correndo para as medalhas, começou vestido e caba nu.
A nível olímpico somos os mais fracos na Europa, como para tudo há uma explicação este artigo é uma achega.


A legislatura da redenção do Desporto

Por Fernando Tenreiro

19/08/2016 -

Esta é a legislatura e o ciclo olímpico em que Portugal poderia redimir o seu desporto.

Há milhões de anos desde que surgiram os seres vivos estes brincam, jogam e competem lutando pela sua vida e pela sobrevivência da sua espécie. As lutas são escrutinadas, os vencedores lideram o seu grupo, a sua espécie, acasalam e sobrevivem.

Os Jogos Olímpicos são o megaevento onde a humanidade elege os campeões olímpicos imitando a natureza. Os países de todo o mundo são racionais e assumem um sentido vital ao investirem recursos públicos que são avultados na participação desportiva de toda a sua população e na celebração dos seus campeões.

Nenhum povo do mundo olha para os Jogos Olímpicos que não seja para verem os seus campeões nacionais serem os campeões olímpicos que vencem todos os outros e sem chorarem o investimento feito. Está em causa a sustentação geracional da sua nação e do amor-próprio dos cidadãos na sua pertença que não teme competir e vencer entre as melhores. Desde a recriação dos Jogos Olímpicos por Pierre de Coubertin, há mais de 100 anos, Portugal tem dificuldade em conquistar medalhas olímpicas sendo o país de menor sucesso europeu, o que ex-secretários de Estado do desporto reconheceram há muitos anos.

La Fontaine conta a fábula sobre a raposa e as uvas onde a raposa tenta alcançar umas uvas apetitosas e, não conseguindo, desiste dizendo que as uvas estavam verdes. Pode sugerir-se que fugir intelectualmente à competição olímpica é uma esperteza como a da raposa que a política desportiva nacional veicula.

Porém, os problemas da produção nacional de desporto surgem da ideologia de apagamento do Estado, da ausência de ambição nacional, do esmagamento do financiamento público, do fracasso das instituições e das políticas desportivas, da desvalorização das federações e dos clubes, etc. Criar boas políticas desportivas visando o sucesso olímpico dos atletas e das federações nacionais é responder ao querer olímpico da população portuguesa e que nem sempre se tem feito em Portugal.

Esta é a legislatura e o ciclo olímpico em que Portugal poderia redimir o seu desporto. Ao desporto português falta, em primeiro lugar, a liderança para o consenso nacional sobre a sua ambição desportiva. Em segundo lugar, definidos e quantificados os princípios haverá que promover a concretização dessa ambição nacional aplicada ao presente ciclo legislativo e olímpico. O primeiro desafio do consenso nacional da ambição desportiva e olímpica caberá à Presidência da República e o segundo desafio da concretização da ambição no presente ciclo legislativo e olímpico caberá ao XXI Governo.

Nestes dois níveis vários aspectos deveriam ser compreendidos. A criação de uma população ciente da sua ambição desportiva e olímpica faz-se com direitos desportivos bem definidos. Nomeadamente os direitos dos jovens relacionam-se com o seu desabrochar físico e psíquico e a oferta de carreiras que facultem a sua integridade física, psíquica, moral e política, assentes em condições desportivas, económicas e sociais de sustentabilidade ao longo da vida.

No domínio da política económica muito se fala da austeridade, acena-se com a sua agressividade e não se referem as medidas de política desportiva para a combater, como as medidas de eficiência económica que torneariam as condicionantes nacionais que afectam a actividade das federações e dos clubes desportivos. A Conta Satélite do Desporto decidida em 2014 é o exemplo de uma decisão de política desportiva que gerou conhecimento capaz de melhorar a política económica em benefício dos parceiros desportivos.

A análise dos dados da performance olímpica demonstra a carência crónica de qualidade com que Portugal se apresenta nos Jogos Olímpicos há vários ciclos legislativos e olímpicos. A performance dos atletas portugueses no Rio de Janeiro sugere não só a ausência de grandeza e competência da política desportiva nacional como também a falta de suporte público à sua dedicação inquebrantável no investimento pessoal e na excelência desportiva.

O fracasso relativo do desporto português no passado deveu-se às políticas públicas que envolveram os mais altos responsáveis da Nação. Em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Pedro Passos Coelho, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Assunção Cristas têm a responsabilidade nacional de definirem, nas instituições que lideram e participam, o consenso da Visão do desporto nacional no século XXI, assim como, a concepção e a operacionalização dos princípios, metas, programas que as instituições nacionais deverão assumir para a concretizarem. Era bom que não considerassem as vitórias conseguidas pelos atletas e equipas nacionais como almoços grátis e pagassem essas vitórias com melhores políticas desportivas nacionais.

Economista (fjstenreiro@gmail.com)



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

INCÊNDIOS e NEGÓCIOS

O Prof. Fernando Pessoa ajuda a perceber a competência em desgovernar e destruir.


Com o país arder, onde estão os serviços florestais? Ah, é verdade, foram extintos!

Por Fernando Santos Pessoa

10/08/2016

As Áreas Protegidas não servem apenas para proteger o lobo, o lince, etc; elas deviam ser modelos de economia social e exemplo para o restante território.

Assuntos aparentemente menores, que não ocupam grandes espaços da comunicação social, seja escrita ou audiovisual, e por isso têm pouco impacte na opinião pública, podem porém ser matérias da maior importância em termos de futuro, de longo prazo – aspectos de que as governanças portuguesas são pouco adeptas. O curto prazo é muitas vezes mais importante que uma decisão sábia de longo termo. E os fogos são exemplo disso.

A extinção dos Serviços Florestais levada a cabo pelo Governo PSD/CDS não levantou qualquer reacção pública; o afastamento entre os cidadãos e a res publica, desejado e promovido pelas derivas liberais daqueles partidos, conduziu ao encolher de ombros da maior parte das pessoas.

Os Serviços Florestais, no entanto, eram um organismo que vinha desde o séc. XIX, e não há país nenhum no mundo, com uma grande área florestal, que não possua o seu Serviço Florestal, muitas vezes até transformado em ícone da Administração Publica.

Já antes, num governo socialista, tinha começado o desaire – a extinção do Corpo de Guardas Florestais, com a passagem do pessoal para a GNR. Foi uma medida gravosa que, tanto quanto me lembro, passou ao lado da opinião pública e ninguém com estatuto público relevante debateu o assunto.

Os guardas florestais e em especial os velhos Mestres Florestais, eram depositários de sabedoria e de bom senso que hoje em dia seriam tão preciosos; eles não eram meros polícias para serem pura e simplesmente incorporados na GNR – eram agentes da defesa e da protecção das matas, vigiavam o estado de limpeza, obrigavam os proprietários a procederem a limpezas, e por isso não deveriam receber ordens de qualquer tenente ou sargento da GNR, sem desprimor para estes, é claro, mas precisavam de ser enquadrados pelos engenheiros florestais que com eles formavam uma cadeia de conhecimentos e de atitudes de intervenção no território.

Esta sabedoria dos velhos Mestres, perdeu-se e mais uma vez devemos ser o único país do mundo com florestas que não tem um Corpo específico de Guardas Florestais, e essa medida insere-se no pensamento liberal que desde o “socialismo liberal” até hoje tem vindo a dominar a vida pública.

 Bastava que surgisse uma pequena coluna de fumo no horizonte e havia quase sempre um posto de guarda florestal que a avistava, o que permitia atacar os incêndios das matas e impedir que assumissem grandes dimensões. E hoje? Bem, parece que esta prevenção dos incêndios causava grande transtorno aos lobbies dos negócios dos meios aéreos e outros que movem muitos milhões de euros, e envolvem gente graúda. O Corpo de Guardas Florestais e a rede de postos florestais eram incompatíveis com a “liberalização” do Estado – menos Estado melhor Estado, como se tem visto …

Não tenho dúvida que era a mais eficaz e mais barata forma de prevenção dos fogos florestais, e só a falta de peso “lobista” dos florestais possibilitou o seu fim.

E então houve um génio da política, que já ficara conhecido por causa do queijo limiano, que chegou a Secretário de Estado daquilo que, presume-se, ele devia saber mais – florestas, natureza, etc…- e resolve retirar os Serviços Florestais do Ministério da Agricultura onde sempre esteve e com o beneplácito dos outros governantes, todos eles interessadíssimos nestas coisas, enfiou-os no ICN, o organismo que sucedeu ao Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico que, desde a Revolução de Abril de 74, incarnava a mudança de conceitos nas políticas portuguesas, fazendo da Conservação da Natureza não um simples ornamento de qualquer Ministério, mas antes um dos pilares fundamentais das políticas de Ambiente e de Ordenamento do Território…

Com estas jogadas, passou-se o encargo dos ordenados dos guardas florestais para o orçamento da GNR e mataram-se dois coelhos com a mesma bengalada : por um lado facilitou-se o negócio do combate aos fogos florestais, sem a intromissão dos tais vigias que não deixavam que os fogos progredissem, por outro diluiu-se o poder de intervenção do ICN dando a impressão que até aumentava a sua importância. Instalou-se nele a confusão e ingovernabilidade, mas qualquer funcionário que fale nisso pode ter problemas. Já não há PIDE mas há quem escute e informe os chefes, escolhidos a dedo como convém.

E este aspecto do ICN merece reflexão.

A Conservação da Natureza desde há décadas que deixou de ser encarada apenas como protecção da Natureza, ela é um processo, melhor é uma política nacional de gestão dos ecossistemas. E como política nacional, para ser eficaz, deve ser transversal a todos os sectores da economia que interferem directamente com o território e com as paisagens: agricultura, florestas, energia, rodovias, indústrias, etc. Todos os sectores da economia devem ter uma componente conservacionista, mas o organismo que tutela a Conservação tal como toda a política de Ambiente, deve ser independente dessas actividades sectoriais.

O que não deixa de ser estranho é que hoje as Áreas Protegidas que incluem parques naturais e reservas naturais algumas delas consideradas Reservas da Biosfera, estejam sem director próprio - é também uma especificidade portuguesa, instituída pelo Governo do PSD/CDS (o PSD, onde já militaram algumas das personalidades mais marcantes da política de Ambiente, que hoje parece que desistiu dessa vocação social democrata que o fez nascer).

As AP não servem apenas para proteger o lobo, o lince, etc; elas deviam ser modelos de economia social e exemplo para o restante território.

Nestes domínios havia algumas decisões que se esperava fossem tomadas pelo actual Governo PS, ainda por cima sustentado por partidos de esquerda, incluindo Os Verdes: um, que fosse recriado o organismo que faz parte do património administrativo português - os Serviços Florestais, voltando a conceder-lhe a dignidade a que tem jus, voltando a pôr em campo o Corpo de Guardas Florestais, enquanto resta alguma memória do seu contributo patriótico; dois, que os Serviços Florestais voltem ao Ministério da Agricultura que já tem de novo a designação “e Florestas”, mas só o nome…; terceiro, que sejam redignificados o ICN e as Áreas Protegidas, a quem o novo Ministro já disse que directores não é para já, como se isso fosse uma questão menor!

Ex-Administrador Florestal, fundador e 1.º Presidente do SNPRPP, professor assistente na Universidade do Algarve

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

DESABAFO

Foto de 1947, jovens do MUD Juvenil, manifestam-se no Concelho de Olhão contra o regime de Salazar. Muitos foram depois presos.

Concordo com quase tudo o que Joaquim Jorge diz, temos diferenças políticas mas tal não me impede de me reconhecer em muito do afirmado por JJ.
Também tenho frequentemente a sensação de pregar no deserto. Há anos que ando com mais alguns amigos a denunciar com provas irregularidades, violações de leis, negociatas a quem de direito (tribunais, ministérios etc...). E nada acontece, que saibamos. Perguntas que fazemos e requerimentos para consultar documentação ou não têm resposta ou somos obrigados a recorrer à CADA e, mesmo assim, com poucos resultados.
Não admira pois que os prevaricadores sintam que podem continuar com impunidade as suas acções lesadoras dos bens públicos. O silêncio dos jornais e rádios sobre o assunto evidenciam a conivência com os caciques e a sua dependência financeira em relação aos ditos. A oposição política não conta mas despertará no período eleitoral para mostrar que ainda sobrevive.
Mas como JJ não me consigo calar.
MC


Valerá a pena criticar?

Por Joaquim Jorge

02/08/2016

Seria mais cómodo nada fazer e dizer, mas ser “livre” é uma opção política.

Pessoas como eu, que gostam de criticar e chamar à atenção para o que acham que não é correcto e está mal, têm mais inimigos do que amigos. Recentemente fui alvo de processo-crime pelo presidente da CM Gaia, por alegada difamação. As minhas críticas sempre tiveram por base as razões e nunca ataques pessoais.

O problema para quem escreve, opina, intervém publicamente, tem que ver entre uma linha de se incomodar e uma linha de não ligar e tudo aceitar. A tentação de nada fazer por vezes é mais forte e cómoda do que actuar e intervir.

Os políticos tudo fazem para que acreditemos nas suas boas intenções, especialmente perto de eleições. O que é que eu pretendo ao intervir das mais variadas formas: escrita, debates, rádio, televisão? Informar, denunciar, alertar, revelar, demonstrar e por vezes acusar quando tenho provas evidentes. No fundo, procurar melhorar a vida pública.

Mas por vezes sinto-me cansado de estar a pregar no deserto. Nada se modifica e ninguém faz o menor caso. Porém não posso ser pretensioso ao ponto de pensar que o que faço consiga mudar o curso dos acontecimentos. No fundo, sinto que não tenho nenhum papel (apesar de me dizerem que tenho), daí, achar que caio no ridículo por não me calar e conter, não tendo a mínima influência em nada.

Critico muitas vezes o governo e recentemente presidentes de Câmara (Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, etc.) e nada muda. Deste modo tenho de dar razão a quem acha que não vale a pena insistir e que não passo de um sonhador, que caio no ridículo, sendo acusado de querer protagonismo.

Na cabeça dos governantes, nacionais ou locais, está a sua vitória nas eleições e têm quatro anos para fazerem o que lhes apetece. Não importa, nem conta, não cumprir promessas eleitorais, rasgar compromissos assumidos, enganar e trair os cidadãos e causar danos irreparáveis nos cidadãos e no futuro.

Todavia, pensando bem, não consigo conter-me e deixar de denunciar abusos de poder, injustiças, denunciar gente sem escrúpulos e canalhadas constantes neste país. É importante tratar de abrir os olhos a quem os tem fechados, procurar que as pessoas reparem no que se passa à sua volta e quem detém o poder, argumentar contra as arbitrariedades, denunciar práticas ditatoriais exercidas em democracia, protestar contra decisões tomadas, abuso dos direitos e liberdades e advertir como formas menos lícitas de actuar e governar.

Seria mais cómodo nada fazer e dizer, mas ser “livre” é uma opção política. Se falamos, caímos no ridículo e julgam-nos por segundas intenções. Se nos calamos e nada fazemos, portamo-nos como cobardes e mansos.

Acredito que a influência é mínima ou zero, mas de uma coisa estou certo: se não incomodarmos um pouco e não estivermos atentos ao que se passa, será ainda pior.

Os políticos e quem governa querem aplausos, vénias e reverência. Tenho a certeza que gostariam que desaparecêssemos, mas ao não conseguirem fazê-lo, ou tentam silenciar-nos, ou não nos querem como inimigos declarados.

Vivemos uma crise de governação democrática representativa. Com frequência vemos claros excessos do poder executivo, invadindo outros poderes do Estado, como o Parlamento, ou submetendo o poder judicial, ou limitando a liberdade de imprensa, ou perseguindo a opinião de adversários políticos.

O equilíbrio de poderes e as liberdades básicas ficam em risco pelo abuso de poder. O voto dos cidadãos é manipulado nestas circunstâncias e a democracia deteriora-se a favor do poder estabelecido.

Eu costumo dizer que tenho uma má relação com a verdade. Dizer as verdades traz-me problemas. Winston Churchill dizia que “ a verdade é tão preciosa que deve ser sempre protegida por uma guarda de mentiras”. O problema é que eu não sei mentir…

Fundador do Clube dos Pensadores


quinta-feira, 21 de julho de 2016

TURQUIA - ISLÃO RADICALIZA-SE


A História da Turquia moderna é desconhecida da maioria das pessoas. Resumir não é fácil. Kemal Ataturk, um militar prestigiado, no rescaldo da I Guerra Mundial conseguiu tomar o poder e proceder a profundas reformas políticas, económicas, culturais que liquidaram o que restava do Império Otomano.                                                                                                              Estabeleceu um Estado separado da religião muçulmana, democrático e secular, republicano, revolucionando o ensino que era basicamente religioso, incluso promulgou em 1934 uma "Lei das Roupas Proibidas" , o funcionalismo passou a vestir à ocidental, o chapéu substituiu o fez, o lenço desapareceu das repartições e escolas.

Este regime que passou a ser conhecido por "kemalismo" teve como garante os militares que, até agora, sempre se opuseram ao regresso do islão ao poder condicionando a vida da sociedade.

Nos últimos anos o fenómeno da crescente influência do islamismo nos países da região impulsionou o partido de Erdogan a ir, gradualmente, criando situações de facto confrontando a Constituição e as leis. Eliminação e ilegalização de opositores, mordaça à imprensa,, intimidações e prisões de jornalistas, autoritarismo crescente, permissão do regresso do véu ao funcionalismo e escolas, endurecimento da repressão aos curdos e, sobretudo declarações públicas e apelos a modificação da Constituição e regresso do Islão como política do Estado.

O "golpe" fracassado foi provocado intencionalmente por este afrontamento de Erdogan com os militares e a democracia, daí a sua frase que foi uma ajuda da "mão de Deus", aproveitada

para Erdogan  decapitar todo o aparelho estatal turco para o converter no braço político do seu sultanato islamista. Os números dos presos e detidos impressionam, tal extensão comprova que as listas estavam feitas há muito. Quem são os presos e detidos? Não é o Manuel pedreiro, ou o José operário, o Luís empregado de escritório etc. São militares, polícias, Juízes, funcionários públicos, reitores e professores, membros de serviços de saúde, jornalistas. O Manuel, o José, o Luís podem esperar, chegará a sua vez, dado ser impossível que contra a política autoritária de islamização de Erdogan os opositores só se encontrassem no sector estatal e público. A pena de morte visa instalar o terror e fazer entrar em pânico a oposição, para tal alguns mártires são necessários. Os curdos que se cuidem. O chamado "daesh" exulta. O islamismo radical está na fronteira europeia. O Kadafi bem alertou, caso a Turquia entre na UE entra o cavalo de Tróia que a irá islamizar.

Junto um artigo que nos ajuda nesta embrulhada.

 MC


De Erdogan a Marine Le Pen
Por José Manuel Oliveira Antunes
20/07/2016
No Ocidente estamos cheios de cinismo, coisa que não se deve confundir com diplomacia.
É uma irreprimível tentação associar as imagens de Erdogan na sua chegada triunfal a Istambul, depois do golpe militar falhado, com as imagens de Hitler a voltar a Berlim, em 1944, após o também gorado golpe militar liderado pelo coronel Von Staufenberg.
Erdogan é um ditador islamita, com especial rancor pelo Ocidente e pelos valores laicos que nos regem. É um autocrata, inspirador do ISIS, algo mais próximo do sultão de um califado do que de um Presidente eleito de uma república. Não será exagerado designá-lo como um fascistóide, cujo extremismo mal disfarça.
É um facto que não há nenhuma simpatia na Europa e nos EUA por Erdogan. Por isso, passámos do sincero desejo de sucesso do golpe — admitindo, por ora, que não foi uma encenação — para, de um modo algo constrangido, aceitar que, afinal, o mau tinha ganho. Por razões tácticas (o acordo de troca de refugiados, por dinheiro) e estratégicas (a importância da Turquia na NATO), alguns políticos e até comentadores lembravam que afinal Erdogan havia sido democraticamente eleito e que um golpe militar não é meio legítimo para derrubar um Presidente eleito.
E aqui chegamos ao primeiro erro grave. Hitler, que aqui referimos como exemplo, não tomou o poder através de um golpe de Estado. De facto foi eleito, por voto secreto e universal. Em 1933, o partido nazi obteve mais de 34% dos votos e constituiu um governo legítimo, apoiado por partidos conservadores alemães. Julgava a direita alemã que poderia usar Hitler para acabar com os comunistas e, depois do trabalho feito, mandavam discretamente o cabo Hitler de volta a casa. Viu-se.
Uma vez legitimado democraticamente no poder, a principal tarefa de Hitler foi destruir, imediatamente, o sistema que usou para se fazer eleger. Se o golpe militar de Von Staufenberg tivesse ocorrido em 1933, também seria uma acção ilegítima? Afinal, o Sr. Hitler tinha sido democraticamente eleito. Convém, por isso, termos cuidado com certos simplismos.
Mais recentemente, na Argélia, em 1992, um golpe militar impediu os islamitas da FIS de tomar o poder, para o qual tinham sido democraticamente eleitos. Isto, claro, antes que tais fanáticos fizessem um banho de sangue no país. No Egipto, em 2012, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, também democraticamente eleito, foi deposto pelos militares, depois de uma curta experiência governativa que, a continuar, levaria o Egipto ao caos.
Mas no Ocidente estamos cheios de cinismo, coisa que não se deve confundir com diplomacia. Propusemos e negociámos com Erdogan um acordo sobre refugiados, que contraria todas as convenções de protecção em que os europeus e os norte-americanos foram pioneiros e que assinaram desde 1951.
O segundo erro são as classificações que convenientemente adoptámos no Ocidente sobre islamitas. Há os moderados, os que "não se sabe bem" e os radicais. Se assim continuamos, temos de rever a História, e também teremos fascistas moderados, nazis civilizados e racistas tolerantes.
Sejamos claros: islamitas são as pessoas, (elites políticas, clérigos ou povo) que professando a religião de Maomé não aceitam a separação entre a Igreja e o Estado. Entendem que todos os cidadãos, quer professem ou não tal religião, têm de sujeitar a sua vida e os seus comportamentos às leis e aos costumes inscritos no Corão. Quem assim pensa, seja radical ou moderado, é inimigo (não se tenha medo das palavras) da nossa liberdade. Sejam estes inimigos da nossa liberdade uma minoria ou a maioria de um povo, o ódio à liberdade não deixa de ser ódio, só por ser professado por uma maioria.
O terceiro erro é a complacência com gente como Erdogan. Em 1941, Churchill foi profundamente pressionado, (com excepção de Anthony Eden) pela direita inglesa e antes por Eduardo VIII, para pactuar com Hitler e deixar o resto da Europa sob o jugo da tirania nazi. Para não ceder à submissão, para a qual os seus próprios pares da direita o queriam empurrar, não hesitou em recorrer ao apoio dos ministros da esquerda trabalhista, para rejeitar qualquer pacto ou complacência com o regime nazi.
Os actuais líderes das democracias ocidentais (EUA, França, Alemanha e Reino Unido, especialmente) estão dispostos a combater realmente os islamitas? Para o que não basta certamente fazer obituários pomposos, funerais de Estado, missas e lamentos. Ou preferem que isso seja feito por "amigos da liberdade" como Marine Le Pen ou Donald Trump?
Jurista